segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Repetição

Ao lermos resenhas de discos, ou escutando a opinião de rockeiros em geral, é muito comum ouvirmos que tal banda é muito repetitiva, que usa uma fórmula batida e desgastada, que é "mais do mesmo", que só fica na mesmice, que não quer sair da sua zona de conforto ou do padrão, etc. Essa aversão à repetição é uma coisa tão corriqueira que pode influenciar os rockeiros a acharem que o Rock/Metal está estagnado, sem inovação, sem originalidade, sem elementos ou ideias novas para renovar a cena.

E apesar de vermos essa aversão por repetição mais frequentemente em estilos mais específicos, todos os estilos podem sofrer dessa crítica:
  • O Rock clássico é sempre a mesma coisa, os mesmos temas, o mesmo instrumental que parece não ter competência ou habilidade para fazer um som mais enérgico e pulsante, fica sempre no mesmo ritmo atéééé acabar...
  • O Heavy Metal já pode ter sido original e inovador em alguma época, mas hoje em dia ele se resume em várias bandas competindo pra fazer músicas rápidas e pesadas sem se preocupar com outras coisas, como melodia, técnica, originalidade. As bandas vivem copiando umas às outras, ou copiando as bandas dos anos 80...
  • O Thrash Metal tem sempre o mesmo timbre, o mesmo tom, a mesma velocidade, é muito chato, dá preguiça! Como eles querem fazer um Metal que se destaque pelo seu peso, agressividade, agilidade, se as bandas do estilo soam iguaizinhas?
  • E o Punk Rock e Hardcore, então? Ouviu uma música, ouviu todas! Todas idênticas, todas sujas, pesadas, rápidas, e só. Mesmos temas, mesmo som, mesma podreira, a única coisa que muda, é o nome das músicas e das bandas. De resto...
  • Mas o Power Metal é pior! Ou as bandas fazem um Metal com vocalista de voz fina e tecladinho e melodia ao fundo, tornando as músicas enfadonhas e com o peso compleamente anulado, ou elas investem naquelas orquestrações e sonoridades épicas que deixam tudo cheio, cansativo, como se fosse trilha sonora de filme de fantasia, .
  • Agora, o Hard Rock? Só um monte de bandas com cabelão e roupa espalhafatosa que não sabem fazer outra coisa além de pagar de doidões beberrões e máquinas de sexo. E todos com voz fina ou rasgada com instrumental arrastado e estridente, é muito irritante. Só as baladas desse estilo se salvam, apesar de algumas serem iguaizinhas também.
  • Já o Metal Sinfônico se resume a várias bandas soníferas copiando umas as outras, ou copiando o Nightwish. É só colocar uma vocalista de voz lírica e aquela sonoridade orquestral metida a trevosa que dilui todo o peso e agressividade que o Metal pode ter. Fica um som beeem cansativo, beeem exaustivo, beeem entediante.
  • Mas e o Rock Progressivo? As músicas e bandas podem até ser diferentes, mas é sempre a mesma coisa pedante, auto-indulgente e bitolada em técnicas musicais, que não oferece o que o público quer ouvir, que émúsica boa e cativante. É uma sucessão incansável de várias técnicas, sacadinhas e coisas que só agradam e impressionam quem se importa mais com a forma com que a música é tocada do que com a música em si.
  • E o Black Metal é sempre aquela pose boba de satanista blasfemadora, aquela sonoridad--
Enfim, você já entendeu a ideia, né? Todos os subgêneros vão acabar sendo acusados de serem repetitivos por alguém. E se você for muito fã de algum deles gêneros, pode se sentir pessoalmente incomodado com isso, pois estão cometendo A AUDÁCIA de reclamar do que você gosta, do que faz o seu gênero querido ser tão especial e único pra você. Como podem, esses seres ignóbeis falarem mal de todas as sutilezas, qualidades e particularidades sensacionais das coisas que você ama?!!?!

E é justamente esse o ponto! Esse é o X da questão! No fundo, as pessoas não se incomodam com o gênero ser "repetitivo", e sim com as características e particularidades que o compõem.

Ora, todo gênero é repetitivo por natureza. Todos seguem uma estrutura pré-determinada, um padrão, uma fórmula. Sempre tem os mesmos ritmos, mesmos arranjos, mesmos timbres, mesmas sonoridades, mesmos instrumentos, mesmos tudo! O Reggae, por exemplo, fica sempre na mesma batida ininterrupta, no mesmo ritmo moderado, na mesma vibe brisada, mas veja se o reggaeiro reclama dessa repetição? Reclama nada! Pra ele, as músicas poderiam ser infinitas, que ele não iria enjoar. E esse mesmo reggaeiro que gosta de um som alto-astral deboísta good vibes, certamente vai reclamar da "repetição" do som cru, bruto e visceral do Death Metal, por exemplo. Ele vai achar que o Death Metal podia maneirar um pouco no pedal duplo, ter menos barulho, não ser tão pesado, variar um pouco a temática das letras, pra essas coisas não serem tão cansativas e enjoativas, porque ficar na mesma coisa o tempo todo é chato... O que? Maneirar nos tambores do Reggae? Vai se ferrar! Com todo respeito e amor a natureza, claro.

No fim, não é a tal "repetição" que incomoda, mas sim a falta de afinidade com o gênero e com as características que o formam. Logo, querer que os estilos mudem ou "deem uma variada" é querer que eles deixem de ser eles mesmos, que eles deixem de ter sua própria sonoridade e personalidade.

Por isso, toda vez que alguma criatura reclama do Airbourne por copiar o som do AC/DC (que se copia desde sempre), ou quando algum resenheiro reclama do Metal Sinfônico por não ter nenhuma banda original, ou quando um maluco aleatório reclama do Rock em geral estar repetitivo e sem nenhuma banda inovadora e revolucionária que saia da mesmice e blá blá blá, este autor só consegue pensar numa coisa:


Se alguém pensa assim, ou é porque já está saturado do gênero que está acostumado, e não ouve outros gêneros e outras bandas; ou é porque já está saturado do próprio Rock/Metal. De qualquer jeito, esse sujeito precisa conhecer e tomar outros rumos, buscando a satisfação em outros horizontes.

É claro que isso não exclui a possibilidade de certas bandas e estilos realmente serem/estarem repetitivos. Podem sim haver bandas que não investem em obras tão criativas e variadas dentro da sua própria proposta. E podem sim haver estilos cheios dessas bandas estagnadas. que se limitam a explorar uma fórmula à exaustão.

Mas esse é um problema que o próprio Rock/Metal acaba resolvendo automaticamente, pois felizmente, ele SEMPRE se renova e evolui. Se chegou um momento em que as bandas estão muito iguaizinhas, e os estilos não saem da sua fórmula, pode apostar que, logo logo, o Rock/Metal renascerá das suas próprias cinzas e surgirão bandas inovadoras e diferenciadas pra nos livrar da mesmice. Aí essas bandas serão chamadas de Rock/Metal Moderno, serão tratadas pelos veículos especializados como "a nova geração", terão fama e reconhecimento merecidos, e serão condecoradas como "a salvação do [insira gênero musical aqui]".

Então, da próxima vez que você achar tal banda ou estilo repetitivo, lembre-se que ele pode até ser repetitivo mesmo... mas você não estaria reclamando se gostasse dessa fruta.

E a conclusão deste artigo é a seguinte: este autor enjoou de Sirenia. Adeusmetal.

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