quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Juventude esnobada

Um problema recorrente vivido pelos jovens que estão inciando sua vida de sacerdócio a Deus Metal, é uma sensação constante de reprovação e desapoio por parte dos rockeiros mais velhos, por parte daqueles que já vivem nesse mundo trevoso de caveirinhas e espetos de metal há mais tempo. Parece que tudo que o rockeiro novato faz, pensa e ouve, está errado. Ele não pode fazer nada, não pode mostrar o que gosta, não pode nem existir, que já é desdenhado, esnobado e desprezado.

A implicância já começa com a forma com que o jovem conhece o Rock, que segundo os adultos chatos, é "muito fácil". Porque "no tempo dele", era muito mais difícil, não chegava tanto material lá de fora, não tinha tanta banda autoral por aqui, não tinha veículos de comunicação especializados pra saber das novidades, a pessoa tinha que conhecer um cara que conhecia um cara que tinha ouvido falar de um cara que era rockeiro e que tinha músicas e bandas pra mostrar, e por aí vai. E hoje em dia, é muito mais fácil conhecer o Rock, pois tem internet pra pesquisar tudo que quiser, pra ver os clipes que quiser, pra baixar a músicas que quiser, tem sites e blogs especializados, tem revistas de Rock nas bancas de jornal, tem lojas vendendo camisas de todas as bandas e de todos os tamanhos, tem lojas vendendo discos e vinis (não que alguém compre, mas tem!), enfim. Hoje, o jovem tem acesso a tudo facilmente, recebe tudo de mãe beijada.

Ué, mas por que receber informação e ter acesso às coisas com mais facilidade e comodidade é uma coisa ruim? Bem... porque os adultos são bobos e acham que existe uma certa glória em conseguir as coisas pelo modo mais difícil. "Sem dor, sem valor". Eles são orgulhosos de si mesmos só por por terem conhecido o Rock numa época em que conhecer qualquer coisa estrangeira era doloroso e árduo. Já hoje em dia, não tem esse "desafio", não tem obstáculos a superar, adversidades pra vencer.

Mas pergunta pro "adulto experiente" se ele abre mão da internet banda larga, do torrent, do celular com mil álbuns de bandas, dos blogs, do YouTube, enfim, se ele abre mão de tudo que tem hoje? É claro que ele não!!! Ele recebe tudo de mão beijada, tanto quanto os jovens! Mas os jovens que estão errados!

"No meu tempo tinha que desbravar nevoeiros, vencer cordilheiras, trilhar desertos inteiros e enfrentar morcegos-lobos pra encontrar com um ermitão que morava no alto de uma colina no meio do Acre só pra ouvir Judas Priest na época que o Rob Halford tinha cabelo! Esses jovens não sabem o que é batalhar na vida!"

Mas o fato da tecnologia estar mais avançada, e o acesso às informações estar mais facilitado hoje em dia, nem é o que mais incomoda o rockeiro adulto experiente e maior de 18 anos. O que incomoda mesmo é que "qualquer um ouve uma banda e já acha que é rockeiro".

"Esse é o maior problema de hoje! Qualquer moleque ouve aquelas bandas que todo mundo conhece, e no dia seguinte, já veste camisa de banda e diz que é rockeiro! Qualquer menina vê uma foto da Cristina Scabbia e quer imitar ela, quer ter "estilo rockeiro", que pintar o cabelo e botar piercing! Basta jogarem um joguinho de guitarrinha de plástico e pronto, já se acham os maiores fãs de Rock! Bando de rockeiro modinha, isso que eles são!!!"

Aqui é preciso separar as coisas, porque o rockeiro adulto responsável e com idade pra ter carteira de motorista reclama de várias coisas ao mesmo tempo:

Uma dessas coisas que ele reclama, é uma que ele mesmo fez no início, quando conheceu o Rock! Ficou empolgado, deslumbrado, maravilhado, todo ouriçadinho com aquele som novo que acabara de descobrir. "UAAAAAAAU!!!!" E essa empolgação por descobrir uma coisa nova acontece com todo mundo! Qualquer um fica de boca abrida com aquela obra prima, pensando "como eu vivi sem isso até hoje???", querendo espalhar pra todo mundo, insistindo pra todo mundo ouvir, e logo depois já providenciando seus dinheiros pra comprar a camisa daquela banda, arrumar um tempo pra baixar toda a discografia da banda (e deixando pra ouvir depois, mas isso é outra história), e tudo mais.

Então, se a pessoa (o rockeiro jovem) gostou tanto da música/banda, qual é o pecado em dizer que é fã dela? Tem que esperar algumas semanas pra dizer isso, por acaso? Tem que pedir permissão de algum adulto responsável pra isso? Ele tem que se resguardar, enquanto o rockeirão velhão que ficou deslumbrado com o novo álbum duplo do Iron Maiden não precisa esperar nem um pouco pra dizer que é fã? Oooora, faça-me o favor!

Outra coisa que o adultão reclama, é do jovem querer ter o "estilo rockeiro" assim que conhece o Rock.

Aí a motivação do novato deve ser levada em conta: se ele quiser ter todo aquele figurino de colete jeans lotado de patches, calça rasgada com coturno, cabelão esvoaçante com camisa de banda da Consulado do Rock, tudo isso só pra mostrar pra todo mundo que é rockeirão, só pra ser reconhecido como rockeiro, só pra aparecer e chamar atenção desnecessária... aí ele é otário mesmo.

Mas se ele se identificou com o estilo, tem curiosidade de como ficaria usando ele, se quer experimentar ele... qual o problema? Às vezes, nós precisamos de um empurrãozinho pra descobrir o que fica bem em nós mesmos, experimentar que adereços, roupas e estilos combinam conosco e que vão fazer parte da nossa personalidade. Se for através do Rock que o moço descobriu que quer ter cabelo grande, ou se for através do Metal que a mulher descobriu que gosta de cinta modeladora, por que condenar isso? Só porque os novatos estão fazendo isso "de uma hora pra outra"? Ora, eles tem que começar algum dia, não é?! É ridículo condenar alguém que começou a gostar de algo em algum momento da vida. Ninguém nasceu gostando de paçoca, dos filmes do Tarantino, de chuva, do dollynho, de camisa de Rock... ou de Rock.

E mais outra coisa que o experiente reclama, é que os novatos só curtem "bandas modinhas". E "bandas modinhas" seriam as bandas mais famosas de Rock, tanto as de Rock e Metal tradicional, quanto as de Rock e Metal Alternativo. Então o gosto do rockeiro novato alterna entre AC/DC e Linkin Park, Guns N' Roses e System of Down, Metallica e SlipKnot, Pink Floyd e Avenged Sevenfold, Ramones e Green Day...

E qual o pobrema? Bom, o adultão tem três razões pra ver isso como pobrema:
  1. Se curte bandas alternativas, não é rockeiro de verdade!!! Mas esse pensamento só se aplica aos rockeiros novatos, porque o "experiente" tem muitos amigos que curtem Rock Alternativo e coisas hereges, e ele não dá um pio.
  2. Se só curte bandas famosas, não se adentra profundamente no Rock. Logo, não é rockeiro de verdade!!! O "experiente" só se esquece de que todo mundo começa do básico! Só depois de saber o básico, que o novato vai se aprofundando mais no estilo - e deixando, assim, de ser novato!
  3. Ele é novinho ainda, nem sabe o que quer da vida direito. Não é um rockeiro de verdade!!! Nessa hora, o "experiente" encarna o pensamento ignorante e preconceituoso da sociedade, aquele que um dia já o atingiu, e que atingiu, atinge e atingirá todos os rockeiros: aquele pensamento que ser rockeiro é só uma fase, que depois passa, quando a pessoa amadurece.
No fim de tudo, percebemos que a implicância e desprezo que a galera mais antiga tem com os jovens rockeiros, é só... birra de adulto. Birra de quem quer ter mais autoridade e ganhar mais respeito só porque a sua velinha do bolo de aniversário tem um número grande. Como já dizia o grande filósofo grego Alexandre Magno (mais conhecido como Carlos Marrom Junior), "O jovem no Brasil nunca é levado a sério".
Claro que não é toda a cena do Metal que faz isso com quem tá começando agora, felizmente. Mas todo novato sente essa pressão e esse desprezo de algum lugar, direta ou indiretamente. E não só no meio do Rock, mas em outras coisas também. Quando tem muito jovem curtindo um filme, o adulto pensa "deve ser ruim, nem vou ver". Quando muitos jovens curtem uma banda nova, "só pode ser uma merda". Quando muitos jovens estão interessados em certa ideologia, opinião ou causa, "com certeza é revolta típica de adolescente revoltado".

E é tão estranho ver esse desprezo pela juventude na cena do Rock, uma vez que o estilo sempre consagrou a juventude e jovialidade nas suas músicas... Tem tanta música com "young" no título, tantos artistas com "Young" no sobrenome (apesar deste autor só lembrar do Neil Young e dos irmãos Young do AC/DC), tantas músicas exaltando a juventude - atrelada a outras características, como liberdade, inconsequência, hedonismo e irresponsabilidade, e tantas bandas que são mais consagradas na sua juventude, já que elas estão velhas e caquéticas hoje em dia...

E nós precisamos da juventude! Quem mais, senão os jovis, continuarão a espalhar a palavra de Deus Metal? E quem mais continuará tocando seu sagrado som, senão as bandas novas? Porque as velhas já estão morrendo! Quando, afinal, voltaremos a dar valor à jovialidade e às novas gerações?

Este artigo terminar por aqui, com uma música velha, que por manter a jovialidade, se mantém atual ainda hoje. Adeusmetal.

1 orações:

Jéssica disse...

Muito bom ver seus textos de volta cara (que já faz um tempo né? Eu que não ando muito pelos blogs).

Texto muito sensato. Entendo um pouco se achar o fodão por ter encontrado as coisas enquanto ainda era tudo novidade e difícil. Faz parte da vontade do ser humano de se sentir "especial". E isso aliado ao sentimento de nostalgia transforma tudo em grandioso demais.

Mas me deixa triste ver o pouco caso com os jovens do metal. Poxa, é assim mesmo, a fase das descobertas, tudo é mais exagerado e no inicio não se conhece tudo. Isso é uma problema da sociedade em geral. É muito chato ver o pouco caso que muitos adultos fazem dos problemas e das aspirações de adolescentes.

Já vi roqueiro "de respeito" que você vê que morre de orgulho quando comentam do visual trevoso dele na adolescência, desdenhando do molequinho que anda de coturno e roupa preta.

Esses dias conheci um menino de uns 13 anos que tá numa fase vidrada no rock clássico. E considera Led e Pink Floyd as melhores bandas do mundo. Me vi totalmente nele, exatamente nessa idade entrei quase numa alienação com as bandas clássicas. Lembro com carinho da beleza que eu via no rock nessa época e do brilho nos olhos dos meus amigos quando chegavam falando que tinham descoberto bandas novas. Acho que falta esse pensamento em muitos dos esnobadores hoje em dia, e isso é só mais uma mostra do quanto o público do metal se considera diferentão da sociedade mas se comporta como os velhões conservadores.

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