domingo, 20 de setembro de 2015

Como ouvir discos

Este é um artigo dirigido mais aos novatos que estão iniciando nesse mundo fantástico e endemoniado do Rock, mas também pode servir para os veteranos em algumas dicas.

Uma coisa é fato: todos passam por aquela fase onde o MP3 - ops, quer dizer, celular - só tem músicas avulsas. Tem (no mínimo) seis músicas do AC/DC ("Back In Black", "Highway To Hell", "Hell's Bells", "Rock and Roll Train", "Thunderstruck" e "You Shook Me All Night Long"), seis do Iron Maiden ("Fear of The Dark", "The Number of The Beast", "The Trooper", "Run To The Hills", "Aces High" e "Powerslave"), três do Guns N' Roses ("Welcome To The Jungle", "Sweet Child O' Mine" e "Patience"), três do Metallica ("One", "Enter Sandman" e "Master of Puppets"), três do Motörhead ("The Game", "Ace of Spades" e "Overkill"), duas do Judas Priest ("Breaking The Law" e "Painkiller"), uma só do Deep Purple ("Smoke On The Water"), uma só do Pink Floyd ("Another Brick On The Wall"), e por aí vai. Não precisa disfarçar, este autor sabe que você ouvia só isso.

Mas depois a gente cresce e começa a ter vontade de ouvir mais da banda, porque ouvir só três musiquinhas de cada uma delas, não dá. Aí surge a brilhante ideia de ouvir... os discos! Afinal, as bandas não fazem eles à toa! Elas não querem que a gente ouça só os hits/singles! E é assim, com esse insight incrível e estupendo, que começamos a ouvir CDs.

Às vezes também acontece de um cara mais experiente no Rock aparecer do nada e dizer que "rockeiro de verdade ouve discos, não só três musiquinhas da banda". Então nós, na nossa jovialidade e inexperiência no Rock, achamos que esse rockeiro veterano é um belo de um arrogante metido! Entretanto, só pra podermos nos afirmar "rockeiros de verdade", começamos a fazer justamente o que ele falou: ouvimos os discos! Bom, pelo menos foi assim com este autor que vos fala.

Seja qual for o motivo pelo qual você, rockeiro veterano, consegue ouvir discos hoje em dia numa boa, hoje você compreende que os hits, singles e videoclipes são somente a ponta do iceberg, a porta de entrada para você conhecer a banda e a sua obra completa. São os CDs que registram o talento, habilidade, genialidade e criatividade das bandas. É por isso que "rockeiro de verdade ouve CD", porque são eles quem realmente apreciam e valorizam o trabalho das bandas e mostram devoção e dedicação ao seu estilo musical.

"Tá, mas como ouvir CDs?", pergunta o rockeiro novato. E olha, essa pergunta é muito boa, porque sempre o incentivam a ouvir os malditos, mas não explicam como fazer isso. Isso acaba fazendo os novatos ouvirem discos de forma forçada, inconfortável e nada agradável. Por exemplo, algumas pessoas não tem muita paciência pra ficarem quietas num canto só ouvindo música. Outras perdem a atenção no meio do caminho. E outras mal tem disposição pra ouvir mais de 6 minutos de uma música só. Então imagina ter concentração pra ouvir um monte de música seguida. Não dá!

E é por isso que este autor vai dar algumas dicas para você, rockeiro novato, conseguir ouvir CDs. Mas essas dicas não serão do tipo "faça o que eu mando à risca porque o jeito que eu tô falando é o certo", porque cada pessoa tem seu modo de lidar com as coisas, e ouvir CDs é um ritual extremamente individual. Assim, este autor vai apenas orientá-lo a fazer esse "ritual" da melhor maneira pra você mesmo.


Conhece-te a ti mesmo
Essa é provavelmente a dica mais essencial do post. Aqui você vai fazer uma auto-análise e se perguntar: Eu tenho paciência? Consigo manter atenção numa coisa só por muito tempo? Por quanto tempo? Eu gosto mais de ouvir música pela rádio, pelo computador, pelo celular, pelo que? Quanto tempo tenho livre pra ouvir música? Quais lugares me deixam mais à vontade pra ouvir música? Quais, ou, em quantos dias, eu estou disposto a ouvir música?

Essas e outras questões tem respostas individuais (e é por isso que este autor não vai inventar uns mandamentos pra padronizar o comportamento das pessoas). Talvez você tenha pouca paciência pra muitas coisas, mas muita paciência pra ouvir várias músicas seguidas, ou o contrário. Nesse caso, você pode ouvir um disco numa boa, ou ouvir metade num dia e outra metade em outro dia - afinal, você não é obrigado a ouvir tudo num dia só. Até porque a sua paciência também vai depender de quantas músicas o álbum tem e o tempo delas de duração. Quer entender melhor? Por exemplo: nas semanas atrás, este autor ouviu os últimos discos do Slash ("World On Fire") e do Scorpions ("Return To Forever") em dias separados, porque os putos tem 17 músicas cada! Enquanto isso, este autor conseguiu ouvir "Victim of Yourself" da banda Nervosa em um dia só, e ele tem 12 músicas - sendo que a primeira música é só uma introdução. Então, pra ter uma ideia, este autor tem um limite de 10 (mais ou menos) músicas que consegue ouvir de uma vez. Talvez você tenha um limite maior, ou menor, ou igual. Isso é coisa sua.

Outra questão é aonde você gosta de ouvir música, o ambiente em que você se encontra. Talvez você goste mais de casa, ou fora de casa enquanto está no intervalo da escola/trabalho, ou na ida/volta pra casa, enfim. Todo mundo tem seu porto seguro pra realizar esse "ritual". Mas um problema que pode surgir é você querer manipular esse ritual e forçá-lo, querendo ouvir música em outros lugares que não sejam seu porto-seguro, só pra poder "aproveitar as oportunidades". Daí você (por exemplo) gosta de ouvir música em casa, com calma e com conforto, mas aí decide ouvir também no ônibus que você pega, com seu celular e seu fone de ouvido. É bem possível que você se force para ignorar o barulho ambiente, a fumaça do trânsito que te deixa zonzo, e os seus ouvidos sofrendo por você ter colocado o volume no máximo, resultando assim, numa experiência nada agradável. Pois é, às vezes não dá pra simplesmente "aproveitar as oportunidades". Se você se sente desconfortável em um lugar que não é seu porto seguro, não invista nem insista, porque você não vai "aprender a se adaptar/gostar com o tempo".

E mais outra questão essencial é como você ouve música, que meio você usa. O ideal é ouvir música saindo pelas caixas de som do seu rádio/computador, porque a música empesteia enche o ambiente em que você está, te deixa mais contagiado e com mais vontade de curtir a experiência - e "levar cultura" pros vizinhos. Mas também é possível pegar seus fones de ouvido e tornar essa experiência uma coisa mais individual, dando a chance de prestar atenção nos detalhes e nas nuances que a música te oferece, o que rende boas surpresas - principalmente se seus fones tem áudios divididos, assim dá pra você o vocal num ouvido e o backing vocal no outro, a cozinha (baixo e bateria) e a guitarra e vocal do outro, ou até as brincadeiras que as bandas fazem de alternar os áudios. Enfim, cada forma de ouvir tem seus pontos positivos (e também negativos), por isso é bom experimentar ambas as formas e ver qual combina mais com você, ou qual te agrada mais,

Tem também a última questão a ser considerada: quando você gosta de ouvir música, em que momento você está mais disposto, em que dias você tem mais vontade, etc. E é um pouco difícil de definir isso, porque algumas vezes tem muitas variáveis envolvidas. Por exemplo, algumas vezes nós simplesmente não temos vontade de ouvir porcaria nenhuma, porque nossa cabeça está tão cheia de coisas pra se preocupar, que ouvir música só vai encher mais a cabeça e dar enxaqueca. Em contra partida, algumas pessoas consideram esse momento ideal para ouvir música, pois isso pode tirá-las da realidade, ter um pouco de diversão escapista e descontração para esfriar a cabeça. Outro exemplo: cê tá feliz, acabaram os problemas, o que você vai fazer pra comemorar? Você finalmente vai dar um tempo pras suas próprias coisinhas e ouvir os discos que você estava adiando tanto! Ou não, porque a sua ideia de comemoração é outra. Você vai pra Lapa beber ou ficar enfurnado em casa vendo séries. Enfim, o "quando" é muito relativo. Por isso essa é a questão que precisa de mais auto-análises, sempre pensando em que momentos você está mais disposto a ouvir músicas.


Que estilo(s) você curte?
Essa é uma pergunta importante porque, dependendo dos estilos que você quer ouvir, vai precisar de mais tempo, mais atenção, mais paciência, e algumas vezes, até mais conhecimento pra poder escutar e aproveitar bem os discos.

Alguns estilos são conhecidos por exigirem esses "pré-requisitos" do ouvinte, especialmente aqueles que tem "progressivo" e "técnico" no nome. Então se, por exemplo, você gostar de "Another Brick In The Wall", e quiser ouvir os discos do Pink Floyd, você vai precisar arrumar MUITA paciência e disposição para tal. Aí você vai descobrir se gosta só dessa música mesmo, ou se gosta da obra completa do Pink Floyd - e começa a achar "Another Brick In The Wall" a canção mais "pop", "simplezinha" e "comercial".

Mas se por outro lado, você curte estilos que se destacam pela sua energia, eloquência, vivacidade e grande apelo ao público (Hard Rock, Rock clássico, Heavy Metal, entre outros), você não vai precisar se preparar mentalmente nem nada assim, basta apenas ouvir e curtir o álbum. Em alguns casos, você vai poder até colocar as músicas no aleatório.

E pra escutar alguns estilos, talvez seja necessário que você já esteja "no clima" pra ouvir, que você já tenha/esteja com um espírito inquieto e eufórico para ouvir álbuns de Punk, Hardcore, Thrash Metal e Metal extremo e outros. Ou talvez isso não seja necessário, mas vai saber...

É importante ter consciência do que vai ouvir, para poder "se preparar", para compreender a proposta da banda e do álbum, para entrar naquele clima que a obra quer que você entre, para poder apreciar a obra como ela deve ser apreciada. E falando em ter consciência do que vai ouvir...


Ler resenhas de discos
Essa é uma boa dica para quem quer se aprofundar MESMO no que vai ouvir, para quem quer entrar fundo nos conceitos, nas ideias e nas propostas do álbum. Diferente de ler uma crítica de filmes, onde seu coração tem medo de ler qualquer spoiler, as resenhas de discos são boas justamente por darem os detalhes da obra, quando conseguem dizer qual a pegada do álbum, quais são seus pontos fortes e fracos, quais as músicas que mais chamam atenção, quais são mais inspiradas e quais são melhores, se o álbum cumpre as expectativas, se se mantém na média, se supera ou se decepciona, etc. Encarar as resenhas como uma amostra do que está por vir é uma boa dica.

Ah, aqui vai um aviso: nem todas as resenhas são boas - como este autor retratou aqui. Então essa dica é realmente opcional.


Organização
Essa dica diz respeito à realização do ritual e à forma como ele vai ser feito. Mas não pense que isso é uma coisa chata, complicada ou complexa, você só vai precisar pensar nas coisas mais básicas: conhecer bem sua rotina (se é que você tem uma rotina) e arrumar um tempinho pra fazer o ritual; e pensar que meio você vai usar pra realizá-lo (ou seja, se vai usar rádio, celular, computador ou mp364194875). Pronto, só isso. Você só vai ter problemas com essa dica se for um cabeça-de-vento desorganizado.

Caramba, eu tenho certeza que eu deixei minhas orelhas em algum lugar por aqui... e agora?


Perguntas frequentes
Como este autor é profeta, ele já está prevendo algumas possíveis dúvidas que você poderá ter. Então vamos lá:

Qual a frequência ideal para ouvir discos?
Não existe uma frequência "ideal". Só você sabe sobre sua vida e sua rotina, então só você pode definir a frequência desse ritual. Algumas pessoas ouvem em média 3/4 álbuns por semana, outras escutam disco pra caramba numa semana só e passam dias e dias sem ouvir nada de novo, e outras ainda conseguem ouvir um disco diferente todo dia! Então, se você consegue manter uma frequência padronizada e estável, bom pra você. Mas se não consegue, tudo bem também.

Acho que tô bugado. Ouvi vários discos e gostei de algumas músicas, e tem algumas coisas boas espalhadas pelo álbum, mas eu não gosto do todo, de alguma forma, não me agrada. O que isso quer dizer?
Isso quer dizer que o seu negócio não é o Rock. O seu negócio é o Molejão. Agora assuma seu gosto pessoal e conviva feliz com essa mudança.


Mentira. Talvez isso signifique que você passa pelo que muitos outros passam, que é não assimilar o álbum de primeira. Isso acontece com este autor várias vezes também, que é gostar de um refrão ali, um riff aqui, um solo acolá, mas não conseguir digerir as músicas por completo, não conseguir fazer o álbum descer pela garganta, não fazer ele deixar de ser estranho e distante. Isso acontece e é uma coisa muito natural. A solução pra driblar isso é bem simples: ouvir o álbum de novo. E de novo e de novo, até conseguir entendê-lo, compreendê-lo, fazer as músicas serem familiares, assimiláveis. Daí, se você finalmente conseguiu digerir o álbum e gostar da experiência, que bom! Esse é um álbum difícil de ouvir, mas que com insistência, vale a pena! Mas se você conseguiu digeri-lo e não gostou, talvez o álbum seja simplesmente ruim mesmo, ou não combine com você.

Aliás, por conta dessa necessidade de ouvir o álbum várias vezes e precisar estar habituado e familiarizado com ele pra gostar dele, é mais cômodo e fácil pra nós mesmos ouvirmos aqueilo que já estamos acostumados. Mas fazendo isso, fechamos os nossos ouvidos pras novidades e desafios, e não precisa dizer que isso é ruim. Então, deixe de preguiça, encha-se de coragem e vá em frente desbravar aquele álbum.

Como vou saber se o álbum é bom ou não?
Um álbum bom é aquele que te faz ter vontade de repeti-lo várias vezes, aquele que te faz cantar junto, que te faz querer memorizar cada nota e cada detalhezinho, que te faz vibrar, que te faz ter uma histeria de alegria contida (porque você não pode soltar a franga em público), que te faz bem instantaneamente, que te faz achar que os minutos passaram voando, porque você não se cansa de ouvir todas aquelas músicas seguidas e toda aquela obra de novo e de novo. Essa é a resposta mais óbvia: se ele te fizer tudo isso, significa que ele é bom, pra você. E se ele te faz sentir tudo isso, MUITO provavelmente vai fazer os outros sentirem isso. Então o álbum não será bom só porque você acha, mas também por maioria de votos.

Se bem que... você pode gostar do "St. Anger"...

Enfim, o que importa é que pra você, ele é bom, e fim de papo.

Agora, se você quiser uma resposta mais técnica e "formal", que aborde o porquê do álbum ser bom, você vai obter essa resposta se tiver mais experiência, se ouvir mais álbuns e mais bandas, porque assim você consegue ter uma visão (ou um ouvido) mais analítico e crítico, que consiga definir e entender todos os elementos do álbum. Assim você vai perceber que ele é bom porque o vocalista é muito afinado, porque as músicas são criativas e não se repetem, porque os solos são sempre empolgantes, porque a cozinha é habilidosa e não serve só pra marcar o ritmo e dar o peso, etc.

Esses detalhes mais técnicos são mais fáceis de serem compreendidos se você já estuda um pouco de teoria musical, mas até o mais leigo consegue ter essa visão (ou ouvido) mais apurado. O leigo só não vai conseguir explicar muito bem o que quer dizer, sempre vai dizer que "aquelas partes lá são boas", e que "quando a banda faz aquilo lá, é muito legal também", mas ele entende de verdade.

Eu preciso ter CDs físicos?
PRECISAR, você não precisa. Entretanto, fazer questão de ter o material físico daquilo que você gosta, vai mostrar sua dedicação e amor pela sua banda/estilo musical. Até porque estamos numa era onde tudo pode ser facilmente acessado e compartilhado, então esse seu amor e dedicação certamente vão ser mais reconhecidos.

Mas se você for pobre, se na sua cidade não tem uma lojinha de discos, se você mora na Catuaba do Norte e o frete praí é mais caro que o próprio CD, enfim, se você não tem como comprar CDs físicos, tudo bem. Ninguém tem direito de te julgar de "poser" ou "indigno da palavra de Deus Metal". Não é todo mundo que tem a sorte de formar sua coleção.

E é saudável que você não veja imagens como essa, senão sua tristeza, ódio, #inveja e #recalque podem aumentar em 528%.

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Este autor espera que estas dicas tenham sido úteis pra você, e que você se sinta incentivado a ouvir mais de três músicas de uma mesma banda e que Deus Metal te acompanhe na sua nova jornada.

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