sexta-feira, 24 de julho de 2015

O ex-rockeiro

Então você vai na padaria comprar um pão de queijo pra levar numa reuniãozinha na casa dos seus amigos. Você vai devidamente trajado para esse tipo de evento: com o "uniforme" de rockeiro que contém calça jeans desbotada e rasgada no joelho (com rasgo proposital), um colar com uma palheta, um tênis velho e surrado, e aquela camisa de banda com a estampa do CD "Holy Diver", chamando a atenção de todos e também de olhares tortos que transmitem desaprovação.

O balconista da padaria já faz o estilo simpático, busca se aproximar de você puxando conversa enquanto manda outro funcionário cumprir a demanda. Ele vê sua camisa e fala que é muito legal, que também já teve essa fase de rockeiro, que sempre andava com a camisa de sua banda favorita... o Iron Maiden - ele demora pra dizer o nome porque isso foi há muito tempo pra ele se recordar facilmente. E você fica incomodado com o relato do padeiro, pois além de você não ter perguntado nada sobre sua vida, ele ainda disse que já passou dessa "fase", sugerindo que seu gosto pelo Rock é só uma moda passageira de jovem, como se houvesse alguma chance da sua vida seguir o mesmo rumo da dele. Você tem vontade de falar que o Rock vai ficar pra sempre na sua vida, mas os seus pães de queijo chegam. Você dá um sorriso falso e um cumprimento aleatório pro balconista e vai embora.

Você chega na casa dos seus amigos para uma tarde de conversa, zoeira, videogame e comes e bebes. Você conta o que aconteceu na padaria mais cedo e seus amigos também rockeiros acham a história engraçada, e sentem pena do padeiro adulto que tem uma opinião errada dos rockeiros, achando que eles são jovens imaturos que trocam de ideias, de gostos e desejos como trocam de camisa. Vocês se sentem bem por não terem a mesma mente pequena que aquele pobre adulto com um emprego medíocre de padeiro que não sabe nada de música.

Mas ele ficou feliz de ver você. Não exatamente você, mas suas camisa de banda. Ele lembra quando já foi dessa turma de rockeiros, bons tempos em que ele não tinha muitas preocupações. Foi uma menina da escola que o apresentou a esse mundo, ela era estranha e mal-encarada, não era muito feminina em roupas e cuidados com a aparência. Um dia eles foram forçados a fazer trabalho de Geografia juntos e se conheceram melhor, viram que tinham gostos parecidos e se tornaram amigos. Ele recomendou filmes pra ela e ela mostrou bandas pra ele, a maioria de Hard Rock e de Heavy Metal dos anos 80 (na época, era coisa recente). Ele já conhecia algumas bandas brasileiras de Rock, mas o Rock elogiado e "pauleira" ele conheceu por causa dela, e a partir daí se considerou um rockeiro à medida que ouvia CDs emprestados e comprava seus posteres, umas camisas de banda e compartilhava seus gostos com os amigos da menina estranha.

Um dia ele insistiu pra mãe dar dinheiro pra comprar um vinil super raro daquela banda que tinha quatro hits seguidos, "Black Dog", "Rock and Roll", "The Battle of Evermore" e "Stairway to Heaven" - a segunda música era sua favorita. Era a única obra original que ele tinha, e guardou como sua relíquia mais preciosa. Depois disso ele foi se concentrar nas bandas mais pesadas, como aquela que tinha um zumbi como mascote. O tempo passou e ele se sentia orgulhoso de ser um dos únicos da sua escola (e da sua cidade pequena) a ser um rockeiro. Não tem como não se sentir especial com isso, era incrível se sentir único numa idade em que ele buscava por identidade. Na época, ele não entendia que estava em busca de auto-reconhecimento em se dizer rockeiro, só achava que fazia parte da sua personalidade, do seu ser.

Um dia ele conheceu uma amiga de um amigo de um colega que era baixinha, com cabelo castanho escuro médio, olhos cor de mel e um sorriso luminoso, que depois de 5 meses de enrolação começou a namorar com ele. Ela não era muito fã das músicas dele, ela até o repreendia quando ele queria ir num encontro com uma camisa do Slayer, pois não era nada romântico. Ele também se preparava pra fazer vestibular e passar na faculdade de Radiologia (decisão muito comentada), e ainda arrumar um emprego meio-expediente, pois seus pais já estavam quase o expulsando de casa. Essas coisas o fizeram ter muito pouco tempo pra escutar música e ser um rockeiro.

Ele passou na faculdade e conseguiu um bico na padaria do primo mais velho dele, o que incomodou seus pais por ele não ter feito tanto esforço ao arrumar emprego. Foi quase dado, disseram eles. Mesmo assim, ele trabalhava de manhã e estudava a tarde, algumas vezes enfrentando um horário apertado e sentindo a pressão das responsabilidades. No tempo livre, ele dava muita atenção pra namorada e também frequentava shows em pubs e bares locais pra aliviar o stress, o que resultou na repetição de ano na sua faculdade. Ele não viu tanto problema nisso, pois já tinha um emprego e um lugar pra morar sozinho, e já tinha planos pra morar junto com sua namorada. No ano seguinte, o casal começou a cair na rotina, a brigar e não se aguentarem mais, o que resultou numa separação brusca e desoladora. Desanimado e cheio de coisas na cabeça, ele viveu na várzea durante o ano inteiro e repetiu de ano na faculdade novamente, o que o encorajou a viver apenas trabalhando.

Um dia seu primo viajou pra outro estado conseguir um emprego melhor e ajudar sua família, e ele ficou sozinho com seus poucos amigos que sobraram desde a época do colégio, e com a padaria pequena para administrar, pois ele era de confiança. Demorou umas semanas pra pegar o espírito da coisa, mas conseguiu se virar bem. Hoje ele se sente bem e de certa forma, realizado na vida, pois tem seu próprio sustento e liberdade para fazer qualquer coisa, e ainda é relativamente jovem pra viver.

E hoje ele viu um rockeiro (você) com a camisa do Dio comprar pão de queijo no seu local de trabalho, o que provocou uma reflexão interna. Ele percebeu que há muito tempo, ele deixou o Rock de lado para dar importância às prioridades da vida, e a sua ilustre presença presença foi como um resgate do passado, uma sensação de nostalgia. Ele percebeu que perdeu uma coisa boa do seu passado, e talvez nunca volte a recuperá-la. Talvez ele nem tenha coragem de se considerar um rockeiro, pois não anda por aí como um, não tem uma galera pra falar disso o dia todo, não ouve mais nada de Rock. Hoje ele não tem nenhum estilo musical preferido, se tornou indiferente ao que sempre toca no seu expediente para dar um som ambiente no local. Ele ouve de tudo, de Sertanejo Universitário a música Pop e não se importa. Ele também lembrou que antes odiava Pagode, pois todo rockeiro que se prezasse, odiava Pagode. Agora ele acha engraçado saber que os tempos mudaram e que o arqui-inimigo do Rock é o Funk. Os gostos, opiniões e desejos realmente mudam com o passar do tempo, sofrem influências naturais internas e externas. Ele passou por essa mudança brusca e talvez nunca mais volte a pegar o gosto pelo Rock.

Você gosta de Dio desde que ouviu "The Mob Rules" e considera que ele foi o único cantor bom do Black Sabbath (tirando o Ozzy). Você ficou triste quando ele morreu, e por ter ficado com a profunda e tocante sensação de ter perdido um ente querido, acha que esse gosto pelo Rock vai ficar pra sempre. O padeiro que disse que já passou por essa fase, não falou isso por mal. Talvez numa situação diferente, num dia diferente, com vidas diferentes, você tenham se encontrado e façam uma boa amizade formada por causa do seu gosto musical. Quem sabe ele não tem coisas pra te ensinar, e coisas pra aprender com você? Talvez você deixe de ser fanático por Rock e ele recupere esta antiga paixão? Nunca se sabe.

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