sábado, 27 de junho de 2015

Mulheres no Rock

Dizemos o tempo todo que mulheres conquistaram tanto espaço na sociedade quanto os homens. O seu passado ruim onde elas eram subjugadas pelos costumes tradicionalistas e conservadores ficou pra trás, pois agora elas podem votar, trabalhar e exercer outras atividades que confirmam sua independência e autossuficiência. Então, o caminho natural a partir disso, é que ninguém fique surpreso ao ver uma mulher fazendo fisiculturismo, ou sendo comandante de um batalhão do exército, ou sendo líderes de bandas de Metal Extremo, não é? Bem, a resposta pra todas essas perguntas, infelizmente, é NÃO.

Qual seria a possível resposta pra justificar o porque de mulheres não fazerem fisiculturismo? "Porque não é de seu costume", "Elas não foram feitas pra isso", "Isso combina mais com os homens", "Você não vê muitas mulheres fazendo isso hoje em dia, o que mostra que a mulher é desinteressada nisso", etc. Os mesmos argumentos podem ser usados pra justificar porque mulheres não servem o exército, porque não são integrantes de bandas de Metal Extremo... e os mesmíssimos argumentos eram usados pra justificar porque mulher não podia trabalhar. "Isso é coisa de homem, não é coisa de mulher. Cada um tem suas particularidades e funções". Ou seja, ainda hoje usamos os mesmos argumentos ultrapassados, ainda temos aquele "achismo", ainda achamos que existem funções ou atividades mais apropriadas para determinado sexo. Por isso ficamos surpresos ao ver uma mulher gerente de um banco, cientista ou lutadora profissional, pois até hoje, isso é incomum, tratado como novidade. O que prova como as mulheres ainda não estão totalmente equiparadas aos homens.

No Rock, a coisa é parecida. A história da mulher nesse estilo musical sempre foi acompanhada da premissa que "isso não é coisa de mulher". Quando Janis Joplin se apresentava com sua banda, todos esperavam que ela fizesse parte da banda de apoio, ao invés de ser a atração principal. Uma mulher seria suficientemente capacitada para tomar a frente de uma banda? Janis mostrou que sim. Não só ela, como também Grace Slick do Jefferson Airplane e Stevie Nicks do Fleetwood Mac mostraram que poderiam ser mulheres capacitadas e talentosas o bastante pra tomar a frente de uma banda de Rock.

Mas elas tiveram sorte em ser reconhecidas e consagradas em seu tempo, pois existiam várias outras bandas femininas na época que até hoje, ninguém nunca ouviu falar, como as Goldie and the Gingerbreads, The Livebirds, Stone The CrowsMarianne FaithfullJoan Baez, Joni MitchellSuzi Quatro - ex-integrante da banda de mulheres Pleasure Seekers que acabou investindo na carreira solo, e muitas outras. Aliás, você sabe quem é considerada a Mãe do Rock and Roll? Não, não é Janis Joplin, mas sim Sister Rosetta Tharpe, uma guitarrista negra de Blues, Jazz e Gospel, que foi influência para vários artistas como Jerry Lee Lewis, Elvis Presley, Johnny Cash, Little Richard, Muddy Waters, B.B. King, entre outros artistas que são tratados hoje como os legítimos "pais do Rock and Roll".

Sim, a pedra angular do Rock foi uma mulher negra. Por que será que ela não é lembrada, né? Só porque ela é preta.
A década de 70 já foi mais gentil para o reconhecimento das mulheres, mesmo que ainda houvesse obstáculos e preconceito. O detalhe é que, se anteriormente, as mulheres eram jogadas no ostracismo ou tinham seu talento menosprezado e questionado, nessa época, a simples presença delas na Música era tratada como "estratégia de marketing", pra banda ou pra gravadora conseguir atrair público, fama e dinheiro. Foi o que aconteceu com as The Runaways, Heart, Fanny. Nina Hagen, Patti Smith, Blondie, (onde a vocalista Debbie Harry se destaca mais do que a própria banda), The Go-Go'sPlasmatics - cuja vocalista investiu na carreira solo e passou a se chamar Wendy O. Williams -, Sonic Youth, Siouxsie Sioux, Bromley ContingentThe SlitsX-Ray SpexJayne County e suas várias bandas, Exene Cervenka e sua banda X...

Enfim, todas as bandas citadas até agora (e outras que este autor desconhece) contribuíram de alguma forma para o nascimento, crescimento e desenvolvimento do Rock, mesmo que não tenham sido reconhecidas como tal. E E mesmo que algumas mulheres sejam pioneiras, como Patti Smith que foi uma das pessoas que iniciaram o Movimento Punk, ou Wendy O. Williams que popularizou o corte de cabelo moicano no Punk, ou Jayne County que foi a primeira mulher transsexual do Rock, isso não foi suficiente para dar o devido reconhecimento às mulheres.

E os anos 80 foram ainda menos gentis com elas, pois o advento do Hard/Glam Rock acabou estigmatizando e perpetuando as mulheres como objetos sexuais, como pessoas sempre dispostas a agradar e satisfazer os desejos masculinos. Dessa forma, criou-se uma liberdade falsa às mulheres, uma liberdade que conferia a elas o direito de serem fãs de Rock, de tocarem em bandas, de fazerem o que quiser, de serem como quiser, DESDE QUE elas fossem gostosas e satisfizessem os desejos masculinos.

Por que você acha que a mulher gostosa é um dos símbolos do Rock?

Isso não impediu, é claro, que as mulheres mostrassem que não eram só objetos sexuais, e que tinham poder e autonomia suficientes para nãos erem tratadas como um fetiche ambulante. Algumas bandas desa época foram Bitch (sim, o nome da banda é esse), Phantom Blue, Madam X, Rock GoddessVixen (infelizmente chamada de "Bon Jovi feminino"), The Bangles, Leather Leone, Lee Aaron, The Great KatWarlock - que depois mudou de nome para Doro devido a problemas com a gravadora, evidenciando assim o nome da vocalista Doro Pesch, que é hoje, considerada a Rainha do Metal -, Jo Bench do Bolt Thrower, entre outras.

E durante a década de 90, as mulheres foram ganhando mais destaque no Metal, mais precisamente no Doom Metal e no Metal Sinfônico. Isso aconteceu porque uma nova tendência estava nascendo naqueles subgêneros, o chamado Metal Bela e a Fera, que consistia em trazer dois vocalistas para a banda: uma mulher fazendo voz lírica, e um homem fazendo voz grave, geralmente gutural. Bandas como Theatre of Tragedy, The 3rd and the Mortal e Tristania foram as precursoras desse estilo, que inconscientemente estigmatizaram e resgataram a imagem da mulher como uma criatura dócil, frágil, meiga, sensível, delicada, imaculada e de beleza estonteante. Hoje é uma tradição inconsciente as bandas de Metal Sinfônico terem uma mulher no vocal. É raro uma banda não seguir essa "norma".

Paralelamente a isso, ainda na década de 90, um movimento dentro do Punk foi criado por mulheres para se opor à associação das mulheres a esses padrões de gênero e conceitos de "mulher foi feita pra isso", "mulher combina mais com aquilo", "mulher tem que fazer tal coisa". E esse movimento se chamou Riot Grrrl. Um monte de bandas femininas ascendeu para dar voz às mulheres fartas de terem suas escolhas questionadas, ignoradas, desprezadas ou duvidadas por pessoas cheias de preconceitos. Preconceitos como o de que uma mulher no Rock/Metal traz mais sensibilidade e delicadeza a um estilo marcado pelo seu peso e acidez (Angela Gossow do Arch Enemy que o diga, né!); que ter mulheres em bandas de Rock e Metal é legal, mas que o som clássico e fiel do estilo é feito pelos homens mesmo; que as mulheres tem que ser, no mínimo, bonitas ou "apresentáveis" para figurarem em bandas (mesmo que esse requisito nunca seja cobrado a bandas masculinas); que mulheres não deviam estar em bandas de Rock e Metal, pois esse estilo é muito bruto pra criaturas tão frágeis e delicadas, etc. Algumas bandas do Riot Grrrl você com certeza já ouviu falar, pois sempre estão estampadas em listas de "bandas de Punk Rock femininas" por aí, e são Babes in Toyland, Bikini Kill, Hole, L7, 7 Year Bitch, Bratmobile, Lunachicks, Le Tigre, Sleater-Kinney, entre outras.

E na década de 00? Ou melhor, de 2000? E hoje, na década de... 10? Como as coisas andam pras mulheres hoje em dia? Bem, os estigmas, conceitos e julgamentos acerca delas se mantém de pé, apesar de serem cada vez mais discutidos e desconstruídos. Ainda precisamos evoluir para fazê-las justamente respeitas e estarem em pé de igualdade de direitos e condições que os homens. Pois se até hoje, as pessoas acham novidade o fato de mulheres terem/estarem em bandas e Rock e Metal; se até hoje, a mídia especializada fala de bandas femininas dando destaque nesse fato exclusivamente, ao invés de darem mais destaque pras suas obras; se até hoje, ainda tem rockeiro querendo que as mulheres "respeitem seus papeis ideais" e toquem estilos  mais "condizentes com a sua natureza"; se até hoje, rockeiros ficam surpreendidos com garotas dizendo que gostam de Rock, já que elas "não tem cara de que curtem"; e se até hoje, mulheres no Rock são mais apreciadas pelos seus peitos do que por suas músicas... Significa que ainda temos um longo caminho a percorrer e evoluir.

"Ain, nunca gostei da Anette Olzon no Nightwish, porque ela é mais feia que a Tarja Turunen." FODA-SE. Ela tava na banda pra cantar, não pra inspirar a sua punheta.

Que as palavras deste artigo penetrem na sua mente e lhe façam evoluir, se questionando e se desafiando a se modificar, e assim poder defender e aceitar a verdadeira igualdade entre os sexos. Adeusmetal.

3 orações:

Anônimo disse...

Excelente artigo! Triste que a maioria dos homens em blogs sobre rock sejam extremamente machistas, talvez por isso que a Bíblia seja um dos poucos que eu acesso :D
O Crucified é uma banda excelente, tu já ouviu Otep?

Renan Lima disse...

Otep eu já ouvi há muito tempo atrás, mas nem me lembro como é o som da banda.

Ailton De Lima disse...

A resenha tá ótima,eu estou pensando em escrever um artigo voltado pro Dia Internacional da mulher,mas só uma correção:no artigo diz que a mulher não serve o exército,em países como Israel,países soviéticos como Rússia,Ucrânia,a mulher é obrigada a servir o exército,não aqui no Brasil.Tem umas preciosidades de artistas femininas que eu já conhecia um pouco,outras to conhecendo agora porque tu mostrou pra nós.Mas eu vou escrever um artigo voltado pra bandas desconhecidas e de países periféricos dentro do Rock como Rússia,Turquia,México,Argentina não muito.Parabéns pela resenha.

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