terça-feira, 16 de junho de 2015

Escolhas

Pra você que é leitor antigo da Bíblia, esta é uma republicação e reformulação do artigo "A porta".

No artigo "Não ser", este autor falou que ser rockeiro é nada mais, nada menos, que gostar de Rock, e só. Não é preciso se vestir de preto o tempo todo, não é preciso ser cabeludo, não é preciso deixar de tomar banho nem fazer pacto com o Cão. Ser rockeiro é apenas gostar de Rock, não tem mistério.

Isso pode deixar os iniciantes um pouco confusos, pois diz-se que o Rock é um estilo muito grandioso para as pessoas entenderem e lidarem, pois tem muita ideologia envolvida, muita cultura, grandes nomes e obras que deixaram sua contribuição para o mundo de alguma forma, muitas filosofias defendidas pelas bandas e pelo estilo, e blá blá blá blá blá blá blá. E por causa de tudo isso, é esperado que os rockeiros respeitem toda essa bagagem cultural, toda essa proposta e todas essas atitudes, e que se esforcem para ser tão engajados e conscientes quanto o estilo que gostam.

E realmente, desde os seus primórdios, o Rock tem como essência (tanto na sua música, quanto na sua atitude), a contestação. É por isso que ele moveu tantos movimentos e estilos contra-culturais, pois sempre andou na contra-mão do senso-comum, sempre defendeu ideias novas e sempre se posicionou contra o pensamento predominante da sociedade. Se ela defendia unicamente o relacionamento monogâmico heterossexual, os hippies propagavam o amor livre. Se o sistema defendia hierarquias sociais, os punks queriam igualdade. Se a sociedade condenava tudo que não fosse "de deus", as bandas faziam questão de provocá-la ao fazer referências ao oculto e ao satanismo. E assim ia, tantos os rockstars quanto seus fãs eram movidos por esse espírito de contestação, de pensar diferente, de sonhar novos horizontes, fugir do lugar comum e abraçar as novidades. E isso é assustador para os iniciantes no Rock, pois eles se sentem compelidos e forçados a cumprir esse comportamento "do contra", para serem reconhecidos como rockeiros "de verdade" pelos outros.

Mas vamos nos acalmar. Assim como ninguém é obrigado a vestir uma camisa de banda todos os dias, ou fazer cara de mau quando anda na rua, ninguém é obrigado a ser um filósofo revolucionário formado pela Academia Internacional da Dinâmica Sociológica das Relações Públicas e Científicas do Conhecimento Interseccional Aplicado Interdisciplinar Charlatânico. Simplificando, ninguém é obrigado a pensar da mesma forma que os seus artistas, ninguém é obrigado a concordar com as letras das músicas que ouve, ninguém é obrigado a levar tão a sério um estilo musical. Não é obrigatório, não é necessário e não é essencial.

Até porque o Rock não tem o monopólio do discernimento, da consciência, da inteligência, maturidade, responsabilidade e demais virtudes. Qualquer fã de outros estilos musicais pode ter essas características, e qualquer rockeiro pode... não tê-las! Um fã de Rap pode ser muito mais consciente da realidade sócio-política do país que um rockeiro, por exemplo. Enquanto isso, um rockeiro pode saber mais sobre cultura geral e História que um fã de Pop, e um fã de Pop pode entender mais sobre Artes do que um fã de Sertanejo, e assim por diante. Relacionar o gosto musical de uma pessoa com as suas virtudes é totalmente errado, pois uma coisa não tem necessariamente relação com a outra.

E se for para adquirir as virtudes citadas, que seja de forma espontânea. Essas virtudes não devem ser parte de um "código de conduta" que permite a pessoa obter uma carteirinha imaginária de "fã verdadeiro de tal estilo musical". "Oh, você sabe o que originou a crise econômica de 2008? Sabe as definições de deontologia, epistemologia e de axiologia? Sabe os fundamentos básicos do Expressionismo Alemão? Parabéns, você está preparado pra escutar AC/DC!". É exatamente isso que não pode acontecer. Essas virtudes devem ser adquiridas para obter crescimento pessoal, para evolução do seu ser, para alcançar conhecimentos mais abrangentes, pra exercitar o senso crítico, enfim. Essas coisas tem que ser adquiridas de forma natural e por vontade própria, não podem ser forçadas só pra uns desconhecidos te reconhecerem como um verdadeiro fã de um gênero musical.

Enfim, pra resumir tudo, você tem escolhas. Você não é obrigado a fazer nada que você não queira. Você pode escolher não ser a pessoa mais consciente do mundo e apenas viver sua vida sem maiores preocupações, sem se preocupar com as criancinhas da África e demais problemas mundanos. Você também pode gostar de um gênero musical e tratá-lo apenas como um entretenimento, e não prestar atenção na sua mensagem (quando há uma mensagem). E você também pode se interessar por assuntos importantes pra sociedade e que discutem a quantas anda o mundo, se os humanos estão sabendo geri-lo direito e como essa gestão pode melhorar. Também é possível que, quanto mais você se interessa por tais assuntos, quanto mais você descobre novas formas de ver e diferentes modos de encarar a vida, que você procure por artes que combinem mais com os seus novos pontos de vista, assim, selecionando filmes, lendo novos livros, admirando pinturas novas, ou ouvindo... olha só, que inesperado, ouvindo Rock!

Sim, é possível que você escolha como trilha sonora das sua evolução pessoal, o Rock! Porque afinal, que outro estilo musical é tão completo em história, conceito, versatilidade e etc, quanto o sagrado e divino Rock? Com ele você pode:
  • Entender um pouco da mentalidade das pessoas da época que as músicas foram lançadas, levando em conta seu contexto histórico - o que ainda lhe faz ter um bom conhecimento sobre História...
  • E continuando o item anterior, entender os anseios, as dúvidas, as vontades, os desejos e os pensamentos dos músicos e dos fãs desses músicos...
  • Pegar o gancho que o Rock oferece e ir atrás de outros conhecimentos, como os já citados Sociologia, Filosofia, Geografia, Religião, Política, Artes e outros...
  • Descobrir coisas sobre si mesmo, descobrir como sua mente reage e lida com determinadas situações e coisas que vão aparecendo na sua vida...
  • Relativizar e entender como as outras pessoas encaram o mundo e o ambiente em que vivem...
  • Se desgarrar de certas ideias que não te satisfazem mais hoje em dia, ao mesmo tempo que aprimora e amadurece outras ideias que já te despertavam certa simpatia...
  • E além disso tudo, você pode bater cabeça...
  • Fazer sua mãe pensar que você é satanista...
  • Ser confundido com black blocs e ser xingado de "lixo" no meio da rua (sério, isso pode acontecer)
A lista é infinita! O Rock pode ser o empurrãozinho que você precisa para ter conhecimento de ideologias, de movimentos sociais, saber como funcionam certas culturas, levantar questões profundas e filosóficas sobre si mesmo e sobre sua condição humana efêmera e aberta ao infinito (profundo, né? Eu deixo você usar essa frase numa poesia depois), além de ter uma trilha sonora para todos os momentos, nos momentos que estiver com raivafelicidade, tristezamedo, nojinho... isso tá mais pra Divertida Mente, mas você entendeu a ideia, né?

A vida é feita de escolhas - você sabe disso por causa das propagandas de cursos pré-vestibular e de faculdades privadas -, e por isso, você pode fazer do Rock um dos seus guias pessoais para a vida, ou... não! Você pode também tratá-lo como um entretenimento (o que não é uma coisa ruim) e até ter uma ideologia diferente dos artistas que você gosta!

Isto é, se a banda que você gosta não se importar com isso.


Mas ele já morreu né, ele não vai poder ficar ofendido hueheuheuehueh....

ai ai

Ademais, o Rock pode ser a chave para firmar o seu próprio eu, ou não. Ele é apenas uma escolha a ser feita, uma oportunidade, uma porta pronta para ser aberta. Você é quem escolhe atravessá-la. E a partir daí, pra onde você vai, o que você vai fazer, o que você vai ser, são escolhas que você deixa pra si mesmo.

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