sábado, 2 de maio de 2015

Vaia ou não vaia?

Nos dias 25 e 26 de abril, o festival Monsters of Rock veio a São Paulo na Arena Anhembi para realizar sua sexta edição brasileira, e também para ficar marcada na alma de todo headbanger que compareceu ao festival. Pois o Monsters foi marcante por várias razões: expulsou o fantasma do MOA (Metal Open Air) que vivia sussurrando constantemente nos ouvidos headbangers que "festival de Rock no Brasil não dá certuuuuu...."; trouxe um line-up de primeira linha ("line" e "linha" na mesma frase é tão estranho); e não houve casos de tumulto, brigas, atrasos nos horários dos shows ou... um meteoro radioativo com estilhaços de plasma venenoso pra estragar tudo. Tudo correu às mil maravilhas.

Quer dizer, mais ou menos. Algumas coisinhas desagradáveis aconteceram também a maior delas sendo a propaganda enganosa do título "Monsters of Rock", já que o festival só trouxe UM monstro, o Manowar, deixando de lado o Bonde da Stronda e o monstro-rei Leo Stronda. Qual headbanger não iria querer bater a cabeça ao som de "BATATA DOCE E FRANGO LOGO DE PRIMEIRA"? A segunda coisa desagradável foi o preço de tudo que havia dentro da arena, como um copo d'água de seis reais. A terceira foi o Motörhead que cancelou seu show devido ao estado de saúde debilitado de Lemmy, que já não vem passando bem há um tempo. E a quarta e principal coisa foi... essa banda da imagem acima.

O Black Veil Brides foi a banda escalada para fazer o show antes do Motörhead no dia, e o público que não queria ver a banda de jeito nenhum, vaiou ela. Mas vaiou com gosto, uma vaiada persistente que não parou por um segundo. O vocalista Andy Biersack até tentou fazer o show e declarou ao microfone "Sei que vocês querem o Motörhead, também gostamos deles, mas isto aqui é um festival", mas teve que sair do palco com sua banda por conta da rejeição.

Esse acontecimento foi o estopim para uma grande discussão entre os headbangers, que se dividiram entre "a favor das vaias" e "contra as vaias", e ambos os lados argumentando coisas distintas. E é sobre estes argumentos que este autor vai falar sobre, discorrendo sobre eles e não defendendo nenhum lado, e sim criticando ambos.

Ah, e se você por acaso quiser reclamar de "parcialidade" deste autor, nem perca seu tempo, porque ele assume ser parcial. Não precisa deixar isso claro, este autor já deixou antes de você comentar lá embaixo. Aliás, como este artigo é opinativo, não tem como existir parcialidade, pois nenhuma opinião é imparcial.


#SomosTodosBVB #VergonhaNacional #BrasileiroEhUmaMerda
A galera que foi contra as vaias teve como cerne do seu argumento a palavra respeito. Essa galera nem gosta do BVB, acha o som fraco e tal, mas não deixou mostrar repúdio pela postura de rejeição e extremismo apresentada pelos que vaiaram a banda. Afinal, todos hão de concordar que a banda não fez nada de errado, só estava tocando no lugar errado para um público errado. E esse público poderia muito bem mostrar um pouquinho de civilidade e respeito pelos profissionais.

Entretanto... Se as pessoas tem direito a bater palmas pra mostrar sua aprovação, por que não tem direito a vaias pra mostrar sua rejeição? Por que a liberdade de expressão não é defendida quando ela é usada para expressar a rejeição e o descontentamento? Isso é muito sério. Tem muita gente que diz, por exemplo, que "se não gosta, cala a boca / fica quieto no teu canto / o que tá fazendo aqui?", mas a pessoa não pode simplesmente dizer que... não gosta de algo? Sem falar que, no contexto do festival, os headbangers que não gostam do BVB foram lá pra assistir todas as outras bandas que tocaram antes e depois do festival. O que eles iriam fazer? Não dava pra simplesmente fugir do festival, nem perder o seu lugar na multidão, então eles teriam que se subordinar ao "respeito" e não expressarem sua chateação justificada?

Existem limites não esclarecidos sobre respeito e liberdade de expressão nesses casos. Este autor não tem opinião formada nesse caso, pois ambos os argumentos (a favor e contra o ato de vaiar) são pertinentes. Esse é um debate que se estende além deste artigo.

Outro argumento para se opor à galera das vaias é afirmar que o público headbanger é muito bitolado e preso o passado, não aceita nada que seja diferente do seu som tradicional, não aceita as novidades e as bandas novas, e é por causa deles que o Rock/Metal nãos e renovam e estão fadados à morte.

Pra este autor, este argumento é uma verdade muito certeira, é uma constatação real e exata... mas que não é aplicável a este caso, nem a este contexto. Pois existem muitas bandas hoje que, apesar de novas, já tem seu reconhecimento e carreira sólidas, e muitas tem tanto estilo e personalidade própria, que nem podemos encaixá-las nos subgêneros tradicionais que já temos. Todas elas representam a nova leva de bandas que vem trazendo um novo gás ao Rock/Metal e continuando seu legado para as futuras gerações continuarem conhecendo a essência do Rock... e nenhuma delas se parece com o Black Veil Brides! O BVB não é "um dos representantes-mor do futuro do Metal", então ninguém precisa se exaltar por isso. Não gostar do BVB não é "rejeitar o futuro" e a modernidade, não é ser mente-fechada e limitado, é simplesmente não gostar do BVB.

Também é extremamente precipitado afirmar que quem vaiou o Black Veil Brides é automaticamente um bitolado tradicionalista mente-fechada. É claro que uma parcela que vaiou a banda pode ser realmente assim, mas não dá pra generalizar e colocar todos no mesmo saco. Se teve gente que vaiou por preconceito, teve gente que vaiou por "pós-conceito" mesmo.

Outro argumento muito usado pelos "respeitosos" foi um argumento que generaliza e desrespeita todos os brasileiros: o de que as vaias foram reflexo da falta de educação típica do brasileiro. Mal sabem esses "respeitosos" que vaias são mundiais, não é só o Brasil que ela está presente. E até poderíamos dizer que o brasileiro é mais civilizado nesses casos, pois, enquanto nós jogamos garrafinhas d'água, latinhas de alumínio e uivamos, os gringos uivam, jogam garrafinhas d'água, latinhas de alumínio, sacos de fezes e urina, lixo e vários outros objetos. E isso não é uma coisa tão difícil de imaginar, uma vez que um dos maiores episódios do Rock foi justamente o daquele rockstar que recebeu um morcego morto jogado da plateia, lembra?

E o último argumento questionável, e muito usado, é o de que o nome do festival é "Monsters of Rock", e o Rock é bem amplo, tem várias vertentes, vários estilos etc. Tudo bem, mas ninguém é obrigado a gostar do BVB por causa disso. Esse argumento é tão absurdo e sem nexo que seria a mesma coisa de você, leitor, dizer pra este autor que vos fala que "existem vários animais na natureza!!!" após saber que este autor não gosta de cães. Quer dizer, não tem nada a ver uma coisa com a outra.


UUUUUUUUUUHHHHHH
Agora vamos dissecar os argumentos dos que vaiaram. Pra falar a verdade, eles são argumentos até mais risíveis e pueris do que os "respeitosos". Um deles é desmerecendo o visual da banda, que como todos sabem, é aquela coisa maquiada, diva, poderosa, glamourosa e rainha do funk, que "não combina com Metal". Porque todos sabemos que nem o Rock e nem o Metal está se importando com visual "apropriado". Nós temos o Glam Rock, representado por inúmeras bandas de Hard Rock maquiadas de salto alto, batom e cabelo bufado. Nós temos o Horror Punk, que tem o visual facilmente confundido com o do Emocore, só que bem mais teatral e ousado. Nós temos inclusive headbangers de cabelo grande, ou seja, usando "cabelo de mulher"! E temos o Black Metal que, tradicionalmente, tem maquiagem! Uma maquiagem metida a importante, inclusive, tem até seu próprio nome: corpse paint. Em resumo, o Rock/Metal definitivamente não tem "visual certo" nem um "visual ideal" pras pessoas dizerem que "certo estilo não combina com o Rock/Metal".

Este autor também sabe que, lá no fundo, essa implicância com o visual do BVB (e outras bandas do estilo) vem diretamente da insinuação que seus artistas são homossexuais. E mesmo que alguns tentem negar, é impossível negar a realidade e as opiniões dos truezões que se referem a essas bandas de Emocore e Metalcore como "essas bibas", "mulherzinhas", 'bando de bicha louca com o cu dando bote" e derivados. Esses xingamentos e julgamentos não são por acaso, são fruto de uma sociedade que não aceita os trejeitos ou visuais tipicamente gays, que vê essas características como ruins, desprezíveis, dignas de escracho.

E a partir do ponto final acima, o headbanger preconceituoso já pensa que este autor (e este texto) é falso-moralista influenciado pela patrulha/ditadura do politicamente correto, e que ele tem direito de falar o que quiser e blá blá blá. Isso porque o headbanger preconceituoso realmente acredita que "coisas de viado" e "coisas de mulherzinha", ou melhor, trejeitos ou comportamento considerados típicos de gays e mulheres, são inerentemente ruins, errados. Pois "o correto" é "ter masculinidade", "ser macho", e coisas do gênero. É difícil mudar a cabeça de alguém que confunde preconceito com liberdade de expressão, então não adianta argumentar muito sobre isso.

Aliás, um macho que faz tanta questão assim de ter contato só com "coisas de macho", que exalam masculinidade e virilidade, das duas, uma: ou é porque gosta MUITO de macheza - e por isso, precisa rever sua orientação sexual -, ou porque a sua masculinidade é muito frágil. Tão frágil que precisa ser reforçada o tempo todo, provada o tempo todo, mostrada o tempo todo, só pro machão se convencer de que é mesmo um machão.

Ah, e outras coisa: implicar com a aparência do BVB e não implicar com o Steel Panther, banda que também tocou no Monsters of Rock, é uma tremenda hipocrisia. Ou o headbanger preconceituoso reclama dos dois, ou não reclama de nenhum. Se é pra ser preconceituoso, que pelo menos tenha coerência! Odeie todos de uma vez, não só uns e outros.

Se bem que o Steel Panther ainda tem "masculinidade" por incentivar as mulheres a mostrarem os peitos, né... bem, esse assunto fica pra um próximo artigo.

Os outros argumentos dos "uuuuuuuuuh" não são muito bem desenvolvidos, então este autor vai resumi-los e dar suas réplicas:
  • Só não gostou das vaias quem é fanzete da banda: Teve muito headbanger que não gosta do BVB e desaprovou as vaias.
  • Vaiar bandas é uma coisa que sempre teve: Isso não é justificativa pra coisa alguma. Sempre teve escravidão também, e isso não é uma coisa "ok".
  • BVB é coisa de adolescente: Aqui já vemos o conceito que, se tem muito jovem consumindo algo, se tem muito adolescente gostando tal coisa, logo, tal coisa é ruim. Ou seja, além de afirmar que jovens só gostam de porcaria, o autor dessa frase ainda confunde a mentalidade do público que a banda atinge com o conteúdo da própria banda. Porque se a idade dos fãs e a banda tivessem alguma correlação, bandas clássicas como AC/DC, Guns N' Roses ou Metallica seriam bandas péssimas, já que "tem muito jovem gostando".
  • Banda de frutinha: Pombas, fruta é bom! É bom comer fruta, maçã, melancia, mamão, mexerica, manga, maracujá... fica aí a dica pra quem quer ter uma vida mais saudável e também brincar de stop.
  • Se BVB é o futuro, prefiro ficar com as minhas "velharias" mesmo, muito melhor do que essas modinhas de hoje: Isso é argumento de quem acha que hoje em dia só tem bandas como o BVB, nunca tendo oportunidade (ou vontade) de procurar bandas boas e atuais.
Existem também outros arremedos de argumento que este autor não quer botar.

Enfim, este artigo não teve conclusão sobre as vaias serem "certas" ou não. Talvez "certo" seja uma palavra muito determinista. Mas talvez exista um fundo de razão nela. Mas talvez a liberdade de expressão seja um conceito que vale a pena colocar nesta questão. Ou não... Vai saber. A conclusão sobre esse assunto fica com você.

E outra coisa que fica com você é o vídeo da banda que nãos e apresentou no Monsters. Adeusmetal.

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