sábado, 23 de maio de 2015

O tal do Movimento Grunge

Este artigo tem o mesmo objetivo de "O tal do Gothic Metal", que é destruir as ilusões rockeiras e esfregar-lhes verdades arrebatadoras em suas fuças vulneráveis. E uma das ilusões mais recorrentes é a de que existiu um Movimento Grunge. Houve sim uma série de bandas de Seattle que ficaram famosas no mesmo período, mas esse acontecimento teve menos importância do que se acredita, e por motivos que não são tão "míticos" assim. Tanto é que dizem várias coisas sobre o Grunge que não tem sentido nenhum: que ele se originou no meio da década de 80, que ele é uma mistura de Heavy Metal com Punk Rock com Rock Psicodélico com Hardcore com saladas sortidas, que ele tinha o objetivo de se expressar contra "tudo que está aí", entre outras mistificações acerca de um acontecimento que foi superestimado. Ah, também dizem que o Grunge matou o Rock, outra inverdade entre tantas outras que você vai conferir abaixo.


A cidade

Seattle é uma cidade caracterizada como portuária, bastante voltada para o comércio e tecnologia, sendo também a mais populosa do estado de Washington. A cidade é conhecida no mundo por ser um centro tecnológico onde várias empresas de software, internet e biotecnologia se desenvolveram, e também por ser um centro comercial e de construção naval. O turismo também é parte importante da cidade, onde uma das suas atrações principais é o Obelisco Espacial. Mas isso você não quer saber, é só pra apontar como é uma cidade chata e sem muitos atrativos extraordinários.

Apesar de ser o berço de Quincy Jones, Ray Charles e outros artistas de Jazz, como também ser o berço de Jimi Hendrix, não houvera até então um acontecimento que marcasse Seattle nas folhas de livros especializados de arte e cultura... Até o álbum "Nevermind" do Nirvana ser lançado. O movimento Grunge na verdade poderia ser resumido com uma única frase de cinco palavras: É tudo culpa do Nirvana. Por causa dele, a cidade recebeu uma torrente de repórteres e jornalistas ávidos para descobrir mais sobre o monte de bandas daquela cidade que alcançaram o estrelato repentino e ficavam no topo das paradas musicais.

Só que eles não encontraram muito sobre o que falar. Nem havia exatamente uma "cena musical", já que a cidade não tinha circuitos de clubes decentes, nem festivais culturais. E quando as bandas conseguiam se apresentar em um poleiro chinfrim, digo, algum clube noturno ou casa de show, conseguiam O INCRÍVEL NÚMERO DE algumas dezenas de pessoas pagantes. E eram sempre as mesmas pessoas, em todos os shows. E pior: boa parte dessas pessoas eram integrantes de outras bandas.

Segundo o guitarrista do Soundgarden, Kim Thayil, "Naquela época, tocávamos sem pensar no sucesso e na fama, mas simplesmente porque queríamos impressionar nossos amigos. Era uma cena com base nas amizades e aquele era um dos motivos pelo qual as bandas se apoiavam, em vez de competirem".

Essa situação fazia com que as bandas existentes não tivessem muita perspectiva e esperança de se sustentar tocando pela cidade, o que as forçava a se profissionalizar e buscar por gravadoras para realmente ganhar a vida. Assim, as bandas ensaiavam nas garagens e porões de suas casas para assinar com a única gravadora independente mais disponível na época: a Sub Pop. Ela quem deu suporte e lançou singles, demos, álbuns e coletâneas das bandas de grunge, sendo considerada a mãe do Grunge.

Falando nisso, o termo grunge vem de "grungy", que significa sujeira, imundície, e caracterizava bem as bandas da Sub Pop e sua sonoridade cheia de distorção, crua e orgânica. Essa "podridão" era a única característica que essas bandas tinham em comum, já que uma puxava mais pro Metal, outra soava mais Punk, outra era mais experimental, outra era alternativa... O subgênero mais adequado pra rotular tais bandas certamente seria o Rock Alternativo, pois nenhuma delas se encaixava em algum subgênero tradicional do Rock.

As origens do termo "grunge" (ou "grungy") são desconhecidas. Geralmente se atribui a sua popularização ao músico Mark Arm, que utilizou a palavra numa carta que enviou em 1981 ao zine Desperate Times, que reclamava da banda Mr Epp and The Calculations dizendo que ela era "Puro grunge! Puro barulho! Pura merda!". O detalhe é que Mark Arm era vocalista da banda. Jeito estranho de fazer auto-propaganda, não?

Depois o termo foi utilizado uma segunda vez pela própria Sub Pop, para descrever a nova banda de Mark Arm, o Green River"Um grunge ultra descolado que destroi as morais de uma geração!", dizia o material promocional. Depois o termo foi amplamente usado por publicações do Reino Unido em 1989, publicações que ficaram bastante interessadas nas bandas da Sub Pop. Foram elas quem começaram a utilizar o termo grunge como substantivo ao invés de adjetivo, descrevendo o nome de um movimento ao invés de um estilo musical.

Aí o Nirvana lançou o "Nervemind", fez um sucesso do caramba e a imprensa tratou de consolidar o "movimento grunge".


As bandas
Vamos listá-las por ordem de nascimento:
  • 1979 - Fastbacks
  • 1980 - Malfunkshun
  • 1981 - The U-Men
  • 1983 - The Melvins
  • 1984 - Soundgarden, Green River (formada pelos integrantes do Mr Epp and The Calculations e do então falecido Malfunkshun)
  • 1985 - Screaming Trees, Skin Yard, L7
  • 1987 - Alice In Chains, Nirvana, Babes In Toyland, Mono Men
  • 1988 - Mother Love Bone e Mudhoney (as duas nascidas dos integrantes remanescentes da então falecida Green River), Blood Circus, Tad, Stone Temple Pilots, Live
  • 1989 - Love Battery, Hole, Gruntruck, Willard, Seaweed, Gas Huffer
  • 1990 - Pearl Jam (nascida a partir de integrantes do então falecido Mother Love Bone), 7 Year Bitch, Paw, My Sister's Machine
Como o disco "Nevermind" foi lançado em 1991, este autor deixou de listar as bandas que nasceram a partir desse ano.

E como dito antes, as bandas grunge tem diversos estilos sonoros. Uma puxava mais pro Metal, outra mais pro Punk, outra pro Alternativo, e etc. Assim, essa lista foi feita com bandas que ficaram rotuladas e conhecidas como grunge.

E é bom ressaltar que algumas bandas listadas nem eram de Seattle, mas de cidades vizinhas. Outro detalhe importante é que elas não ficaram na Sub Pop por toda a vida. Depois que ganharam a atenção da mídia, a maioria delas assinou contrato com outras gravadoras mais poderosas. O próprio Nirvana foi para a Geffen Records.

A maioria das bandas ficou indignada por ser rotulada como grunge, pois esse termo diminuía seus valores individuais e transformava sua arte numa moda comercializada. Até Mark Arm, que dizia que tocava Punk Rock, detestou ter iniciado essa moda, mas não tinha poder de acabar com ela. "Parecia uma maneira de rotular toda banda que vinha de Seattle. Os grupos não tinham o mesmo som, mas, de repente, o que era um adjetivo se tornou um substantivo", disse.


O culpado
Foi esse o safado que começou tudo. Não, não, o bebê é inocente. Foi esse disco o culpado, o big bang do Movimento Grunge. "Nevermind" vendeu 35 milhões de cópias no mundo todo, ficou no topo das paradas de Billboard superando Michael Jackson, sendo um dos álbuns mais vendidos do mundo todo até hoje. No início, a gravadora tinha produzido apenas 46.251 cópias de "Nevermind", que se esgotaram rapidamente, deixando os fãs esperançosos por mais cópias por duas longas semanas e registrando um dos raros momentos na indústria musical moderna onde houve a escassez de um álbum.

Tudo bem, há uma inversão do ônus da culpa aqui. O culpado do "Movimento Grunge" existir não é o Nirvana, é a mídia. Imagine a situação: você mora numa cidade qualquer e sem notoriedade no Rock. Um dia o seu disco vende como água e a mídia mira todos os holofotes do mundo em cima dos seus olhos. Não só nos seus olhos, mas nos olhos das outras bandas da sua cidade, já que a mídia descobre a coisa mais óbvia do mundo: toda formiga vem de um formigueiro. Então a mídia procura as outras bandas da cidade, botou bandas de diferentes estilos no mesmo saco, e ainda te consagra como o líder de um "movimento" que não existia até aquele momento. Loucura loucura, não é? Agora você sabe um dos motivos pelo qual Kurt Cobain "não conseguia lidar com a fama".

O Movimento Grunge nada mais é do que um punhado de bandas de uma cidade (e de cidades vizinhas) que não tem nenhuma característica essencial em comum sendo propagandeadas como "o novo suprassumo do Rock, os novos representantes de uma geração, os líderes de um sentimento de revolta e insatisfação, os blá blá blá (...)". Como escreveu a revista Entertainment Weekly, "Tal nível de exploração de uma subcultura não acontecia desde que a imprensa descobrira o hippies nos anos 1960". A diferença entre o Movimento Hippie e o Movimento Grunge é que o primeiro movimento queria ser reconhecido, tinha realmente causas a apoiar e lutar, tinham trejeitos próprios, estilo de roupa própria e bandas com sons e temas padronizados. O Grunge não tinha nada disso.

Quer dizer, tinham alguuuumas coisas em comum, que não eram de propósito. Por exemplo as letras das bandas grunge eram conhecidas por representar a apatia e a desesperança de uma geração que está cansada de simplesmente... tudo. Bem, esse é o tema recorrente que você vai encontrar em bandas underground. Por exemplo, pegue aquela banda que ficou conhecida pela Globo, aquela que tocou "I Don't Wanna Miss a Thing" do Aerosmith, qual é mesmo o nome? Malta! Isso, Malta! Ela faz um relativo sucesso por sempre fazer letras envolvendo alguém especial, amor, relações e coisas do gênero. E você quase não encontra temas diferentes desse no mainstream. Já no underground, letras sobre o cotidiano, problemas, inquietação, cansaço, insatisfação e sarcasmo são comuns. Ou seja, não é que as bandas grunge tenham esses temas em comum, são as bandas underground em geral que tem esses temas.


A moda
Mas e as camisas de flanela? E as roupas surradas, esfrangalhadas e maltrapilhas que as bandas usavam? Bem, não eram TODAS as bandas que usavam, muito menos todos os integrantes, pra começo de conversa. E o costume de usar camisa de flanela era cultural da cidade, já que ela era perto da fronteira com o Canadá, onde haviam lenhadores que só usavam camisa de flanela.

Além disso, as bandas que usavam roupas surradas não o faziam por estilo, mas por pobreza mesmo! O estilista Jean Paul Gaultier disse em 1993 uma verdade: "O grunge nada mais é que o modo como nos vestimos quando estamos sem dinheiro".

Não era a primeira vez no Rock que os artistas "lançavam tendências". Elvis Presley fez vários homens adotarem costeleta e topetão. Os Beatles fizeram vários cortarem o cabelo no estilo cuíca. Axl Rose fez o kilt vitar cult. Jimi Hendrix fez as faixas amarradas na testa subirem de nível. Mas no caso do Grunge, foi tudo acidental. Kurt Cobain, Layne Staley, Chris Cornell, Eddie Vedder (esse usava bermudão) se vestiam como sempre se vestiam, mas de repente um monte de fãs abobados quiseram adotar o "estilo" deles.

E a mídia e a moda se aproveitaram disso. As revistas em geral começaram a se comportar que nem a Capricho, fazendo chamadas como "dicas para ser grunge", "como ter o visual grunge", "montando seu guarda roupa grunge", "vista-se grunge", enquanto a moda fez suas modelos magérrimas adornarem peças quadriculadas, botas militares, suéteres, calças jeans rasgadas e outras combinações nada a ver aleatórias que os estilistas inventavam. A moda também confeccionou peças caríssimas no estilo "grunge", que custavam os olhos da cara e que tinham a "aparência" de velhas e surradas. Quer dizer, pra que comprar uma roupa velha e gasta genuína, se você pode ir numa loja chique para comprar imitações de roupas velhas e gastas? Ah, e os novos xampus da época também vinham com uma nova fórmula para "parecer que o cabelo não está lavado há dias", acredite se quiser.

Sobre essa nova tendência da moda, um leitor da Vogue escreveu ao editorial da revista: "A sua concepção de moda grunge está completamente equivocada. Se a ideia é se vestir de modo simples, por que retratar modelos com peças de quatrocentos dólares? Ninguém que se identifique honestamente com o gênero de música rotulado como grunge irá pagar mil e quatrocentos dólares por um cachecol de caxemira (especialmente quando é possível comprar uma confortável camisa de flanela por cinquenta centavos no brechó da esquina)". Mas uma coisa esse leitor errou: nessa época de explosão do grunge, já não era possível achar camisas de flanelas tão baratas.

No fim das contas, o Movimento Grunge morreu com o suicídio de Kurt Cobain, mas a "moda grunge" permaneceu. Hoje, lojas de roupas sérias vendem jeans rasgados, e se você não vê nada de irônico nisso...


O fim
Ashes to ashes, dust to dust. The time clocks strikes and you obey, like a candle light that fade... O Movimento Grunge veio à ascensão com "Nevermind", e veio ao óbito com o suicídio de Kurt Cobain. A modinha terminou junto com o cara que a popularizou. As bandas grunge começaram a sair das paradas de sucesso, outras terminaram as atividades, e poucas bandas continuaram com a carreira firme e forte, entre elas o Pearl Jam, Melvins, Alice In Chains, Mudhoney, Foo Fighters (formado pelo ex-batera do Nirvana, Dave Grohl) Soundgarden, e outras poucas.

Em vida, quando era perguntado sobre o Movimento Grunge, Kurt preferia ignorar a pergunta, ou respondia com sarcasmo. Um dia um repórter lhe perguntou sobre a cena de Seattle, e ele respondeu que "Todas as cenas são relevantes, mas elas acabam se transformando em nada ou sendo esquecidas". E ele estava certo. Absolutamente certo. O movimento Grunge ocupou o lugar do Glam Rock/Hard Rock. Antes dele, veio o Punk Rock inglês e americano. E depois do Grunge veio o "Punk Rock Californiano" do Green Day, Blink 182, Rancid, NOFX, The Offspring, entre outros. Toda cena tem seus 15 minutos de fama duradouros enquanto duram.

É assim que a mídia opera. Quando ela vê uma cena local, espontânea e diferente do convencional, vê potencial lucrativo nela e a vende. Até "dá valor" a ela, se necessário, superestimando-a e propagandeando-a sem parar. E quando as vendas estão caindo, tratam logo de vender outra cena.

Os radicais que adoram dizer que "o Grunge matou o Rock de verdade" agora podem parar de dizer essa frase de efeito sem embasamento e entender que foi a mídia quem matou o "Rock de verdade". Afinal, o "Rock de verdade" ainda está aí, vivo no underground.

***
Era pra esse artigo terminar com alguma lição ou conclusão arrebatadora, mas todas as lições já foram dadas, então... adeusmetal.

Ah, geralmente este autor não diz quais são suas referências e fontes de pesquisa, mas desta vez ele abrirá uma exceção. Foi o livro "Kurt Cobain -  A Construção do Mito" que ajudou este autor em grande parte deste artigo, desde as informações essenciais até o seu tom e objetivo.

Agora finalizamos mesmo. Adeusmetal.

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