sexta-feira, 8 de maio de 2015

Censuras no Rock

Opinião. Liberdade. Censura. Fé. Sabonete. Bengala. Formigamento na panturrilha. O Globo Repórter desta noite... quer dizer, a Bíblia do Rock esta noite (independente de você estar lendo o artigo de manhã, de tarde ou no Crepúsculo) vai tratar de um assunto que ela nunca se aprofundou até então. Sabemos que o Rock era discriminado pelos conservadores que não gostavam dos jovens se divertindo e sendo felizes criaturas dançantes ao som do Rock; atacado pelos moralistas que achavam o Rock um estilo imoral, por ter músicos delinquentes e perversos que cantavam sobre hedonismo, sexo e drogas; desprezado pelos racistas que odiavam um branquelo que nem o Elvis Presley cantando e dançando "música de negros"; amaldiçoado pelos religiosos que achavam que o Rock afastava as pessoas de Deus... e por outros tipos de pessoas que eram iguaizinhos à sua vó.

Mas o Rock nunca chegou a ser censurado por isso tudo. Nunca foi impedido de tocar nas rádios ou teve venda de CDs proibidas, faixas censuradas, proibidos em países... Ou será que já?


SIIIM! O Rock já foi perseguido, proibido, banido e censurado em países ou estados, devido à pressão de grupos organizados ou pelo próprio governo, e por motivos que você vai notar que são sempre desinformados, exagerados ou só porque feria a "moral e os bons costumes". Vamos ver exemplos:


Pessoas comuns
Pra começar, se você tiver o visual rockeiro e for um homem cabeludo e barbudo, ou uma mulher de cabelo tingido e tiver piercing, prepare-se para livrar-se dessas coisas quando for procurar emprego ou ocupar qualquer cargo, pois antes de qualquer coisa, a sociedade exige que você se submeta aos padrões estilísticos ultrapassados e preconceituosos. Nós sabemos que a eficiência, esforço e outras qualidades positivas de uma pessoa não se medem pela sua aparência, pela quantidade de tatuagens que ela tem, pela cor do cabelo dela ou pelo tamanho do seu alargador, mas falta a sociedade saber disso. E enquanto ela não mudar sua mentalidade, preconceituosa e retrógrada, os rockeiros e rockeiras que tem esse visual vão ter que se adequar a esta situação.

Apesar dessa exigência de aparência "politicamente correta" ser uma realidade, isso não é um fato tão falado nem merecidamente contestado, o que demonstra como as pessoas são acomodadas e condicionadas a aceitar coisas ruins. Felizmente algumas coisas ruins passam do limite da aceitação, por serem acontecimento que não se vê todo dia. É o caso deste garoto da foto.

Ele é Marcelo Corrêa Carvalho, e em 2011 aos 8 anos foi repreendido pela diretora da sua escola por gostar da banda satânica Aéron Merda, digo, Iron Maiden. O garoto só estava batucando de boas na carteira da sala de aula e a sua professora o levou à diretoria, onde foi questionado porque fazia aquilo. O garoto disse que quando crescer, queria ser guitarrista do Iron Maiden. Então a diretora mostrou imagens de capas de CD do Iron pelo computador pro garoto e o alertou: ISSO EH DU DEMONHO!!!! Depois do ocorrido, a mãe do garoto o fez mudar de escola. (fonte)

E não são só alunos que são discriminados de escolas por serem rockeiros, professores também. Régis, um professor que ouve Rock desde os 10 anos de idade foi demitido de uma escola particular da zona sul paulistana, por "inadequação ao perfil pedagógico da instituição". (fonte)

Mas essa discriminação não é privilégio do Brasil. Em Stuttgart, Alemanha, o professor estagiário de política, filosofia, história e ética Thomas Gurrath foi demitido do Hegel Gymnasium por ser cantor da banda de Death Metal Debauchery.

O Debauchery tem um estilo inconfundível: toca Death Metal com uma pegada leve em comparação a bandas como Deicide e Vader, e tem uma veia teatral que faz a banda fazer performances com sangue, caretas e mulheres nuas em posição de submissão, fetichizando mulheres banhadas em sangue.


Depois que um supervisor da escola viu o site da banda e conheceu parte do seu material, contatou as autoridades de educação locais, que deu um ultimato a Thomas, obrigando ele a escolher entre sua banda e seu estágio, baseando-se no argumento que a não-violência era fundamental para a imagem do corpo docente. Thomas disse que ninguém se machucava de verdade na banda e que tudo era apenas encenação, uma encenação pre representar a sujeira e violência do mundo. Assim ele decidiu continuar na banda, dizendo "Eu nunca desistiria da minha música só porque as autoridades de educação ordenaram".

Outros casos de discriminação de rockeiros devem ter acontecido e devem acontecer atualmente, mas não são famosos o bastante pra virar notícia. Este autor mesmo já recebeu um depoimento de uma garota pela página da Bíblia dizendo que foi espancada várias vezes por ser rockeira na escola, e o coordenador e diretora não a defenderam. Por causa dessa negligência, a família dela entrou na Justiça com um processo de indenização. Não foi a primeira vez que este autor serviu de muro das lamentações dos seguidores, mas foi a primeira vez que ele recebeu um caso desses. Ele só não vai mostrar prints desse depoimento em respeito a menina que não precisa relembrar o que passou.


Censuras pelos países
Agora este autor vai falar sobre bandas ou músicas que foram censuradas em países pelo seu governo. A começar pelo Brasil: é um fato bem conhecido que o Rock só surgiu depois do término da Ditadura Militar, que censurou e exilou vários artistas. Entre esses casos de censura, alguns se destacam: em 1977, a banda Made In Brazil teve seu disco "Massacre" censurado, e com isso, suas gravações perdidas pra sempre.

Só que não. Por um acaso do destino, Osvaldo Vecchione, um cara comum e qualquer, estava preparando a mudança na sua nova residência e encontrou, por acaso, fitas perdidas da gravação do "Massacre", o que fez a banda relançar este álbum em 2005 e com faixas inéditas como comemoração.

Outra famosa história de censura foi com a Blitz, que quando estava pra lançar seu álbum "As Aventuras da BLITZ 1", teve que esperar a sua aprovação pelos censores. Acabou que eles proibiram as duas últimas músicas "Ela Quer Morar Comigo na Lua" e "Cruel, Cruel, Esquizofrenético Blues", o que levou a banda a fazer um protesto criativo: riscou com um prego as duas faixas não aprovadas no LP master, fazendo com que todas as suas cópias saíssem igualmente riscadas. "A ideia era passar ao público a agressão que sofremos", disse o então vocalista Evandro Mesquita. Quem comprou esse LP na época ficou assustado por comprar um vinil novo e já ferrado, até que tudo foi esclarecido um tempo depois. E com o fim da ditadura, as músicas censuradas foram relançadas nos álbuns posteriores da banda.

Agora mudemos de país. Em 1997, o Iron Maiden foi proibido de tocar no Chile pelo governo, por pressão da Igreja Católica local. A acusação era de que a música "Bring Your Daughter To The Slaughter" incitava o assassinato, e "The Number Of The Beast" incitava satanismo e assassinatos. Felizmente esse tempo de censura pra Dama de Ferro já passou, tanto que em 2012, ela fez no país o DVD "En Vivo!", durante a turnê do seu álbum "The Final Frontier".

O Metallica teve mais sorte quando foi tocar na China em setembro deste ano. Acontece que a banda tinha dois shows marcados no país, mas teve de mostrar toda sua discografia para o governo chinês, pra o governo poder dizer que canções a banda poderia tocar e quais não. Por fim, o governo proibiu a música "Master of Puppets", mas deixou a banda fazer seus shows.

A China tem um histórico conhecido de repressão política e cultural, onde a censura de conteúdo "perigoso" é institucionalizada pelo governo, que fiscaliza e analisa tudo que vem de fora para ver se está tudo "ok". Muitas bandas já foram impedidas de tocar no país, como o Bon Jovi. Algumas até conseguem, mas sofrem algumas restrições, como o Guns N' Roses que tem seu álbum "Chinese Democracy" banido do país. Mas felizmente, milagres acontecem: o Slash já conseguiu tocar lá sem sofrer restrição, como também o Hibria, a primeira banda brasileira a tocar na terra do arroz e economia crescente.

Agora vamos manchar o filme da Coreia do Sul. Segundo o livro Heavy Metal: A História Completa, a terra do "Gangnam Style" já foi autoritária:

Em 1975, muitas das músicas do Black Sabbath foram banidas pela Federação Sul-Coreana das Organizações Culturais, que as tachou de "subversivas e antiguerra". Estações de rádio coreanas, todas de propriedade do governo, pararam de tocar heavy metal, e jovens cabeludos eram punidos por policiais armados de tesouras, com cortes na juba, onde quer que estivessem.

O Black Sabbath também foi proibido na URSS, junto com outros artistas como B-52's, Village People e Tina Turner. A desculpa pro Black Sabbath ser censurado é que o Partido Comunista o classificou como "uma banda com mensagens perigosas de obscurantismo religioso". A estranheza fica pelo fato da URSS ser um estado ateu, então... por que ele se preocuparia com uma banda que criticava religiões?

E foi em Cuba que aconteceu um grande caso de amor e ódio com o Rock. Durante os anos 60 e 70, o Rock foi proibido na ilha, especialmente os Beatles, com a desculpa que era um estilo que fazia propaganda dos valores morais americanos. Apesar disso, os jovens que eram interessados nesse estilo fizeram protestos, e o governo acabou cedendo LPs, CDs e outras mídias rockeiras. Nos anos 80, entretanto, o Rock foi totalmente liberado, e as bandas nacionais até tiveram apoio do governo para fortalecer a cultura, além da ilha receber shows internacionais, fazer festivais dedicados ao estilo e até construir uma estátua de bronze de John Lennon em Havana, inaugurada pelo próprio Fidel Castro. "Eu compartilho os sonhos dele completamente. Eu também sou um sonhador que viu seus sonhos se tornarem realidade", disse Castro em referência à música "Imagine". Tem até sites (1, 2) pra quem quiser ouvir o som local.

O último país que vai ser citado neste tópico é os EUA, pois foi até onde a pesquisa deste autor que vos fala conseguiu chegar. Em 2003, uma rádio de Nova Jersey baniu o Jethro Tull de sua programação depois que o vocalista Ian Anderson criticou numa entrevista a mania que os estadunidenses tem de hastear a sua bandeira em tudo que é lugar. "Odeio ver a bandeira dos EUA pendurada em cada caminhonete, em cada carro, em cada casa da área residencial do meio-oeste. É muito fácil confundir patriotismo com nacionalismo, e isto me incomoda", disse Ian. A rádio se defendeu dizendo que a censura aconteceu por pressão do público, não por causa dos chefes da rádio.

Mas o maior e mais icônico ataque ao Rock aconteceu em 1984 na terra da "liberdade". E ele se chama PMRC.


A história do PMRC
Era Reagan, 1984. Nesse tempo, o Rock já era mais do que conhecido. Já existiam cabeludos de jaqueta andando pela rua, cabeludas se rebelando contra os pais, a MTV exibindo os clipes das bandas mais famosas, as rádios tendo rockeiros no primeiro lugar e muito mais. E foi em dezembro deste ano que Tipper Gore, a esposa do então senador Al Gore ficou horrorizada com o que via pela TV, avistava pelas ruas, ouvia nas rádios, o país estava cheio de músicas indecentes que afetavam a moral e os bons costumes! Alguém tinha que fazer alguma coisa, e coube a ela denunciar os males da verdade e do amor e estender o seu poder às estrelas, avisando à população do país que as músicas da época estavam cada vez mais sexualmente explícitas, excessivamente violentas e glorificavam o uso de drogas e álcool, especialmente o tal de Rock and Roll que tinha bandas formadas por pervertidos sexuais (Scorpions), satanistas (Black Sabbath) e até travestis feiosos (Twisted Sister). Foram Tipper Gore, Susan Baker, Pan Howar e Sally Nevius (todas esposas de políticos) que fundaram o grupo PMRC, o Parents Music Resource Center.

A ideia central do grupo era de que essas músicas lascivas, violentas e imorais da época estavam diretamente ligadas ao crescente número de suicídios e estupros entre os adolescentes. Pra provar a tese dos suicídios, o grupo usou como exemplo as músicas "Suicide Solution" do Ozzy Osbourne , "Don't Fear The Reaper" do Blue Ösyter Cult e "Shoot To Thrill" do AC/DC. Já pra exemplificar os estupros, usou... praticamente qualquer música. Com essa explicação totalmente simples para os problemas sociais, o grupo cresceu em influência e conseguiu adeptos conservadores fervorosos e raivosos, persuadidos pelos mesmos argumentos que a Igreja Católica usa: "Se você não nos apoia, você faz parte da sujeira mundana e da imoralidade que assola este país e que levará todos ao Inferno!".

Depois de um tempo conseguindo donativos pra fazer campanhas, divulgação e fortalecer o grupo com idiotas úteis, o primeiro ataque da PMRC foi pedir à RIAA (Recording Industry Association of America) que a indústria musical criasse diretrizes ou avaliações que classificassem os discos das bandas e mostrassem quais eram "apropriados" para o público, semelhante à classificação indicativa que faziam com os filmes. Como o PMRC estava apenas pedindo voluntariamente, a RIAA não acatou o pedido. TOOOOOOOOMA!  Assim o grupo quis obter mais influência e poder, e publicou um artigo no jornal Washington Post com todas as suas exigências: imprimir as letras das músicas na capa dos álbuns (!), colocar capas de álbuns explícitas lá embaixo das prateleiras das lojas, pressionar as TVs e rádios a não exibirem músicas e videoclipes "explícitos", classificar os videoclipes com faixa etária, e "reavaliar" os contratos das bandas explícitas, como também aquelas que se comportam de maneira indecente nos shows. Esse artigo fez as lojas Wal-Mart, J. C. Penney, Sears e outras redes de lojas deixarem de vender CDs de Rock.

O PMRC também fez a lista "Os 15 Imundos", fazendo um ranking das músicas mais abomináveis.
  1. Prince - Darling Nikki (Motivo: Sexo/Masturbação)
  2. Sheena Easton - Sugar Walls (Motivo: Sexo. "Sugar Walls" seria uma metáfora pra "vagina".)
  3. Judas Priest - Eat Me Alive (Motivo: Sexo)
  4. Vanity - Strap on Robbie Baby (Motivo: Sexo)
  5. Mötley Crüe - Bastard (Motivo: Violência/Linguagem)
  6. AC/DC - Let Me Put My Love into You (Motivo: Sexo)
  7. Twisted Sister - We're Not Gonna Take It (Motivo: Violência)
  8. Madonna - Dress You Up (Motivo: Sexo)
  9. W.A.S.P. - Animal (Fuck Like a Beast) (Motivo: Sexo/Linguagem)
  10. Def Leppard - High 'n' Dry (Saturday Night) (Motivo: Uso de drogas e álcool)
  11. Mercyful Fate - Into the Coven (Motivo: Ocultismo)
  12. Black Sabbath - Trashed (Motivo: Uso de drogas e álcool)
  13. Mary Jane Girls - In My House (Motivo: Sexo)
  14. Venom - Possessed (Motivo: Ocultismo)
  15. Cyndi Lauper - She Bop (Motivo: Sexo/Masturbação)
Sobre essa lista, King Diamond disse: "Eu imagino que a pior coisa que poderia nos acontecer foi até positiva. O PMRC colocou o Mercyful Fate em sua lista dos 15 Imundos. Acho que das nossas eles pegaram 'Into The Coven', mas podiam ter selecionado qualquer outra música!".

Em 19 de setembro de 85, o Comitê do Comércio, Ciência e Transporte do Senado convocou audiências para tratar sobre "o assunto relacionado ao conteúdo de certas gravações sonoras e sugestões que embalagens de gravações sejam rotuladas para fornecer um aviso a potenciais consumidores de sexualidade explícita ou outro conteúdo potencialmente ofensivo", onde foram chamados Dee Snider, Frank Zappa e John Denver para defender o Rock. Essas audiências foram o momento-chave para o embate entre os rockeiros e os inquisidores!

Os inquisidores
Paula mostrou essas três capas de disco na audiência...



... e esses dois clipes...


... e concluiu: "Muita coisa mudou desde os tempos aparentemente inocentes de Elvis. Sutilezas, sugestões e insinuações deram lugar a expressões evidentes e descrições de atos violentos, muitas vezes sexuais, uso de drogas, e flertes com o ocultismo. Essas capas de discos para mim são auto-explicativas". Já Susan Baker disse "Há certamente muitas causas para esses males em nossa sociedade, mas é a nossa afirmação de que as mensagens destinadas às crianças que promovem e glorificam o suicídio, estupro, sadomasoquismo, e assim por diante, tem de ser contados entre os fatores contribuintes".

E pra não ter apenas duas bruxas velhas falando, chamaram também o professor Joe Stuessy da Universidade de Texas de Santo Antônio, falando sobre o poder da música no comportamento das pessoas. Partindo da premissa do PMRC que as taxas de suicídio e estupro aumentaram por causa do Rock, ele argumentou que o Heavy Metal é diferente de outros gêneros populares antigos como Rock and Roll e Jazz, pois estes eram "música de igreja", enquanto o Metal tem em seu elemento central o ódio. O psiquiatra de crianças e adolescentes Paul King também deu sua palavra, dizendo que testemunhou a deificação de músicos de Heavy Metal e a apresentação do estilo como uma religião. Ele também afirmou que muitos (não especificou quantos exatamente) absorvem profundamente as letras do estilo.

Os rockeiros
Eles foram impecáveis em seus argumentos. Até John Denver, o músico de Folk que ninguém conhecia deu sua palavra a favor do Rock, surpreendendo o PMRC que achou que ele estaria do lado inquisidor. Frank Zappa fez uma oratória digna de político (honesto):

A proposta da PMRC é uma peça de estupidez concebida de forma doente que falha em fornecer reais benefícios às crianças, infringe as liberdades civis das pessoas que não são crianças, e promete manter a corte ocupada por anos, lidando com os problemas de interpretação e de execução ao molde da proposta.

O estabelecimento de um sistema de classificação, voluntário ou de outra forma, abre a porta para uma exibição sem fim de controles de qualidade morais baseadas em "Coisas que certos cristãos não gostam". O que acontece se a próxima leva de esposas de Washington exige um grande "J" amarelo em todo material escrito e interpretado por judeus, a fim de salvar crianças indefesas da exposição à "oculta doutrina Sionista"?

A PMRC forjou uma besta mítica, e forma uma tramoia por exigir "normas de procedimento do consumidor" para impedi-lo de convidar suas crianças para dentro de suas paredes de açúcar (uma referência à música de Sheena Easton que ficou na lista das 15 Imundas). O próximo passo é a adoção de uma "idade legal, de acordo com a PMRC, para compreensão da excitação vaginal"? Muitas pessoas nessa sala iriam orgulhosamente apoiar tal legislação, mas, antes de eles começarem a traçar suas ideias, eu os incito a considerar estes fatos:

1. Não há evidência científica conclusiva para apoiar a ideia que a exposição a qualquer tipo de música influenciará o ouvinte a cometer um crime ou condenar sua alma ao inferno.
2. Masturbação não é ilegal. Se não é ilegal fazê-lo, porque seria ilegal cantar sobre isso?
3. Nenhuma evidência médica de palmas cabeludas, verrugas ou cegueira têm sido ligada à masturbação ou excitação vaginal, nem tem sido provado que ouvir referências a qualquer um dos assuntos transforma o ouvinte em uma deficiência social.
4. A execução de uma legislação antimasturbação poderia se provar custosa e consumidora de tempo.
5. Não há espaço o suficiente em prisões para prender todas as crianças que o fazem.

A proposta da PMRC é mais ofensiva em seu "tom moral". Ela parece forçar um conjunto de valores religiosos implícitos em suas vítimas. O Irã tem um governo religioso. Bom para eles. Eu gosto de ter a capital dos Estados Unidos em Washington, D.C., apesar dos recentes esforços para movê-la para Lynchburg, VA.

Dee Snider também deu sua palavra. Ele foi todo largado na audiência, como a imagem ao lado mostra. Puxou um papelzinho e disse:

A Sra. Gore disse que uma de minhas músicas, "Under the Blade", encoraja ao sadomasoquismo, servidão e estupro. As letras que ela citou não têm absolutamente nada relacionado com estes assuntos. Ao contrário, as letras em questão são sobre cirurgia e o medo que ela causa nas pessoas. Como o criador de "Under the Blade", eu posso dizer categoricamente que... o único sadomasoquismo, servidão e estupro nesta música estão na cabeça da Sra. Gore.

A respeito da música “We’re Not Gonna Take it” ser classificada como incitante de violência e ser incluída na lista das 15 Imundas, ele disse: Você notará nas letras na sua frente que não há absolutamente violência de qualquer tipo cantada sobre ou implícita em qualquer lugar na canção. Agora, me ocorre que a PMRC pode haver confundido nosso vídeo para a música com o significado das letras. Não é segredo que os vídeos freqüentemente descrevem histórias completamente não relacionadas com as letras da música que eles acompanham. O vídeo para "We’re not gonna take it" foi simplesmente feito para ser um desenho com atores humanos representando variações dos desenhos de "Papa-léguas e Coiote", cada acrobacia foi selecionado de minha extensa coleção de desenhos.

A respeito da acusação de garotos usarem camisetas do Twisted Sister com desenhos de mulheres algemadas e em posições de sadomasoquismo: Isso é uma mentira completa. Nós não apenas nunca vendemos uma camiseta desse tipo; nós temos sempre levados grandes dores para nos mantermos limpos de sexismo em nosso merchandising, álbuns, palcos, show e vida pessoal. Além disso, nós temos sempre promovido a crença de que o rock 'n' roll não deveria ser sexista, mas deveria satisfazer a homens e mulheres igualmente. Eu sinto que uma acusação desse tipo é irresponsável, danosa à nossa reputação, e caluniosa. Eu desafio a Sra. Gore a produzir tal camiseta para dar razão à sua crítica. Eu estou cansado de encontrar garotos na rua que me dizem que não podem tocar nossos álbuns mais por causa das informações enganosas têm sido fornecidas a seus pais pela PMRC na TV e nos jornais. A beleza da literatura, poesia, e música é que eles deixam espaço para sua audiência colocar sua própria imaginação, experiências, e sonhos em palavras. Os exemplos que eu citei antes mostraram clara evidência da música do Twisted Sister sendo mal-interpretada e injustamente julgada por adultos supostamente bem informados.

A audiência ficou em aberto sem veredito, mas todos ouviram e viram que os rockeiros sabiam se expressar e tinham razões no mínimo convincentes para o que faziam, deixando claro que as acusações que faziam a eles eram exageradas.

Isso não impediu, porém, que em primeiro de novembro de 85 a RIAA cedesse ao pedido do PMRC de colocar um selo na capa dos discos considerados inapropriados. O nome formal dele é "Parental Advisory", mas também ficou conhecido pelo apelido de "Tipper Sticker", em referência à Tipper Gore. Esse selo não era tão efetivo e nocivo quanto o que o grupo planejara, mas cumpriu os seus propósitos. Com ele, os pais ficaram sabendo quando seus filhos estiveram ouvindo "coisa ruim", e o mais importante: restringir ou impedir a venda desses CDs "sujos". Isso aconteceu porque lojas como Wal-Mart não queriam comprometer sua credibilidade e imagem ao vender discos considerados impróprios, o que fez o Rock não ser censurado por lei, mas ser censurado pelas lojas voluntariamente, por assim dizer.

Vários artistas e bandas protestaram contra esse selo de diversas formas: Danzig fez a música "Mother", com uma letra dirigida especialmente aos pais super protetores que não deixam seus filhos ouvirem o que quiser, mesmo que sejam verdades duras; o Megadeth fez a música "Hook In Mouth" falando sobre o PMRC; o Anthrax fez a música "Startin' Up A Posse" xingando e mandando o PMRC se foder, entre outros exemplos que este autor não quer mostrar por não ser tão relevante.

O Sonic Youth colocou um desenho miúdo na contra capa do seu álbum "Goo" dizendo "SMASH THE PMRC". Clique para ampliar.


O Rage Against The Machine fez um protesto no Lollapalooza III desse jeito:


E tocaram peladões durante o festival.

O auge do ataque da PMRC foi esse selo, mas outras formas de "terrorismo" também foram notáveis. O apresentador de TV fanático cristão Jerry Falwell liderou o grupo Maioria Moral, que era outro grupo querendo fazer uma cruzada contra o Rock e a imoralidade. O grupo até conseguiu donativos (alguns milhões de dólares) para ingressar suas ideias na política, entre elas a proibição do aborto em qualquer circunstância, defender a segregação racial nas escolas públicas e obrigar as escolas a ensinarem Criacionismo ao invés do Evolucionismo.

Outro grande aliado foi Bob Larson, um reverendo evangélico atuante na radio e TV que desde os anos 60 lançou uma série de livros sobre Rock e sua relação com Satanismo, escritos sob a perspectiva cristã (ignorante e fanática religiosa).

No fim dos anos 80, o PMRC também abriu uma linha de telefone para o povo, onde os pais cristãos fanáticos e preocupados ligavam e recebiam conselhos sobre como lidar com a imoralidade das músicas da época. Dá pra imaginar isso?

- PMRC, boa tarde.
- Oi, aqui é John Phillip, e eu queria uma ajuda. O meu filho vem ouvindo uma banda que tem um cemitério na capa do álbum, e outra que tem um anjinho fumando... ele está sendo muito arredio e não obedece minhas ordens, o que eu faço?
- Agradecemos a ligação. Realmente o caso é grave, daqui a pouco ele vai começar a girar a cabeça 360º e vomitar na sua cara. O que o senhor deve fazer é jogar água benta no seu filho para atordoá-lo, e levá-lo correndo para a igreja mais próxima para uma sessão de exorcismo. Você também pode encomendar conosco músicas religiosas com artistas abençoados como Padre Fábio, Padre Antônio Maria e Padre Marcelo Rossi para reeducar o seu filho ao caminho do bem.
- Obrigado! E eu posso receber músicas da Aline Barros também?
- Não, ela infelizmente é serva de Satanás. Ela cometeu blasfêmia ao cantar em uma das suas músicas "É, assim, assim, essa é a alegria do Senhor dentro de mim", onde dá pra notar claramente a insinuação sexual dela com o Divino, e isso é inaceitável.

O "Parental Advisory" ainda está nos CDs hoje em dia, mas a força que esse selo traz consigo foi fraquejando e banalizando com o passar do tempo. Na verdade o selo foi até transformado numa espécie de status, pois as pessoas sempre foram instintivamente mais atraídas pelo que é proibido ou considerado errado, fazendo então com que esses discos "sujos" e "impróprios" fossem mais desejados e a curiosidade sobre eles fosse aumentada! E também não é preciso dizer que essa cruzada anti-Rock foi perdendo a força e persistência, restando somente a geração da sua vó para continuar encanado com o estilo, mas sem ter moral nenhuma. Sim, os tempos mudaram, pra pior e pra melhor.

Hoje em dia o Rock não há a mínima chance de ser censurado, já que ele não aparece na mídia e por isso, não tem tanta fama - o que não atrai atenção da sua vó. O Rock hoje só atrai a atenção dos jovenzinhos que se acham o máximo ouvindo "November Rain" e querendo que o Brasil censure o Funk, tendo a mesma mentalidade que o PMRC para tal. Ironias do destino...

Maaas caso o futuro seja ruim conosco e apareçam adeptos do Feliciano e Bolsonaro aos montes pra "limpar a cultura brasileira" e deixá-la bonita e cheirosa, o que com certeza afetaria o Rock underground por ter "violência, morte, mutilação, sexo e etc", você já sabe o que fazer: ter Zappa e Snider na memória e se manifestar contra o opressor. Este artigo termina por aqui, e viva la libertad de expression. Adeusmetal.

4 orações:

Marina Oliveira disse...

Muito massa o artigo, é importante saber esses aspectos da história do estilo xD

Achei massa a fala do Snyder sobre a questão do sexismo, não é uma posição que todas as pessoas têm no Rock e no Metal, infelizmente, afinal esses estilos não estão imunes às coisas na sociedade que provocam segregação e opressão, mesmo sendo estilos que tem a luta contra a opressão como um pilar, apesar das exceções.

É uma reflexão importante que devemos ter sempre em mente, principalmente se desejamos que o Rock e o Metal continuem a ter esse aspecto subversivo, questionador, que incomoda o status quo, ainda que não tenha tanta repercussão quanto antes. Por exemplo, não adianta falar contra a Igreja Católica e ao mesmo tempo utilizar linguagem machista e achar que está sendo o pica das galáxias da subversão, a Igreja Católica agradece seu machismo que ela ajuda tão bem a manter.

Apesar das motivações estúpidas e de acusações que atiraram pro lado errado dessas bestas como a PRMC, não significa que as letras, símbolos e defesas do Rock e do Metal sejam perfeitos e não mereçam críticas. Pra mim, realmente há muitas letras sobre estupro (não acho que isso vá fazer os caras saírem estuprando ou aumente índice de estupro de alguma forma, mas que é uma merda errada, é e muito), como a "Let Me Put My Love Into You" do AC/DC (e outras dessa banda, que adoro mas tem um gosto machista e até misógino terrível pras suas letras).

Enfim, fugi um pouco do conteúdo da censura, mas acho que faz parte pensarmos nessas coisas, já que essas censuras têm motivações políticas então levam a discussões políticas hehe

Tiago disse...

Artigo muito interessante. De facto, a música sempre teve um papel interventivo de grande importância. Não é à toa que se diz que a canção também pode ser uma arma. Parabéns!

X Andrei disse...

Muito bom, cara! Parabéns pelo texto!

Anônimo disse...

Bom, pra quem adora lamber as bolas dos judeus que são os que disseminam o comunismo e toda a subversão na sociedade encarar o rock unicamente como forma de protesto é um prato cheio. Eu odeio judeu e odeio gente vitimista.

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