sexta-feira, 17 de abril de 2015

Rock e Satanismo

Não se sabe o momento certo em que aconteceu, mas a velha e conhecida lenda de que o Rock é satanista tomou força constante, girou o mundo ocidental e se tornou senso-comum, sendo uma crença disseminada pelos cristãos, pelos pastores dos Estados Unidos, pelos seus pais fundamentalistas, pelas velhas fofoqueiras da sua rua e por outros serumanos em geral. Todos eles colocaram o Rock N' Roll como um estilo musical satanista, ocultista, sacrificador de galinhas, adorador de bodes e louvador do cão. Este artigo irá explorar este assunto abordando quando tudo começou, trazer informações diversas sobre as relações falsas e verdadeiras entre o Rock e o satanismo e mostrar curiosidades que você não precisava saber, mas que é bom pra aumentar sua cultura inútil.


Um ritmo contra uma legião
É muito claro que o Rock sempre foi um estilo de música libertador, sempre falando sobre o que tinha vontade e não se importando com a reação negativa das pessoas, além de se engajar em questionar os dogmas sociais, moralistas e fundamentalistas que todos estão condicionados a aceitar desde que nasceram. O Rock nasceu com esse instinto de ser o porta-voz de quem já estava cansado das opressões e dogmas impostos pela sociedade, que na época (especificamente neste caso, a partir de 1950) era bem mais insuportavelmente conservadora que hoje. Imagine TODO MUNDO com a mesma mentalidade de Silas Malafaia, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e outras figuras conservadoras, para ter a dimensão do cenário.

Nesse contexto histórico onde até o racismo era algo corriqueiro, as igrejas protestantes dos EUA viram como o Rockabilly, Rock and Roll e outros estilos derivados eram diferentes, pujantes e divertidos, falavam sobre festejar e ser livres, e perceberam que a base dos seus admiradores eram adolescentes e jovens adultos, apesar desses estilos terem fãs de todas as idades. Só isso foi suficiente para que as pessoas presas na Caverna de Platão e às Igrejas começassem a rejeitá-lo, atacando-o com os argumentos mais estapafúrdios do mundo, aqueles argumentos que você conhece muito bem: que esses estilos musicais são do demônio por pregarem a libertinagem, o hedonismo, o prazer, o pecado; e por isso esses estilos fazem as pessoas se afastarem de Deus, porque as pessoas não devem dar ouvidos às coisas mundanas, mas m devem ser sóbrias e não dar ouvidos às coisas mundanas, mas louvar as coisas do Céu... etc. Isso sem falar que os grandes artistas desses estilos eram negros, e negros eram, segundo a Igreja, "os descendentes amaldiçoados de Noé". O racismo não tem justificativa, mas quando eles queriam arrumar alguma, usavam a Bíblia.

O tempo passou e a cabeça das pessoas foi mudando, enquanto a Igreja, seus pastores e suas ovelhas continuavam a sua missão de difamar o Rock e acusá-lo de libertino e imoral, usando como exemplos os artistas que se envolviam com drogas, que falavam abertamente de sexo, que tinham ideias libertárias, enfim. Felizmente, sua birra divina sempre fora abafada pelas músicas de Rock que não paravam de tocar nas rádios e pelo barulhinho das caixas registradoras guardando o dinheiro das vendas de vinis. Tchk Tchin!

Entretanto, o Rock só deu motivos para os cristãos fundamentalistas criticarem, como por exemplo...


Letras controversas
É bem fácil achar letras que abordam temas mais obscuros, falando sobre ocultismo, satanismo, mágica, trevas, etc. Basta ter um pouco de paciência e fazer uma pesquisa pra ver que parte considerável das bandas de Rock tem letras que citam Satan, que falam de Inferno, ou que são mais elaboradas, como...

Trecho de Twisted Sister - Burn In Hell
Welcome to the abandoned land. Come on in, child, take my hand.
Here there is no work or, only one bill to pay.
There's just five words to say as you go down, down, down.
You're gonna Burn in hell!

Trecho de Megadeth - The Conjuring
I am the devil's advocate, a salesman if you will.
Come join me in my infernal depths.
I've got your soul! Obey!

A música pode ser conceitual, ou assumir um personagem ou eu-lírico, ou contar uma história, ou seja lá qual for a proposta. Para os cristãos extremistas, não importa. Se está falando de demônios, em diabo ("Sympathy For The Devil", 'Running With The Devil"), em inferno ("Highway To Hell", "Hotter Than Hell") ou qualquer coisa que seja anti-cristã, a banda já tem a alma vendida ao diabo em 12 vezes sem juros e sem entrada.


Simbolismo

As bandas de Rock também costumam usar símbolos pagãos, ocultistas e de quaisquer outras religiões que não sejam cristãs nos seus logotipos, nas suas capas de disco, nas camisas de bandas, nas fotos promocionais, etc. E como os cristãos extremistas são... extremistas, fazem um escândalo quando veem qualquer símbolo que não seja o de uma cruz. Esses símbolos aí em cima, por exemplo, são da banda Led Zeppelin, e a ideia é que cada um deles represente um integrante da banda (e os significados deles estão aqui). Como pode ver, as bandas de Rock costumam usar esses símbolos exóticos, desconhecidos e estranhíssimos, e é natural que você tenha essa desconfiança e receio com coisas novas. Mas se você for um religioso bitolado, vai ver esses desenhinhos diferentes automaticamente como "coisa ruim".

Mas as bandas costumam usar símbolos não-cristãos bem comuns, até, bem conhecidos pelas pessoas, mesmo que seu significado não seja tão conhecido assim. Por exemplo...

Pentagrama
A princípio, o Pentagrama tem vários significados, depende da religião pagã e da cultura que o sua (ou usava). A nossa cultura ocidental acabou atribuindo o significado dele ao significado que os gregos davam, de que cada ponta do pentagrama representa um elemento da natureza: água, fogo, terra, ar e espírito. Os rockeiros também utilizam o pentagrama invertido, que é considerado um símbolo essencialmente maligno, sendo mais utilizado por seitas anti-cristãs, de fato. Então, para deixar claro: o pentagrama em si, não tem anda de ruim. Já o pentagrama invertido já é maligno. O que não quer dizer muita coisa quando ele é usado como logotipo de banda, capa de disco ou qualquer coisa assim, pois símbolos sozinhos e usados não fazem efeito nenhum.

Mão chifrada
No Rock, essa mão tem vários nomes: chifrinhos, horns, metal horns, e outros. E é um símbolo pagão que significa... é difícil saber, pois cada cultura dá um significado diferente pra ele também. Mas ele foi popularizado no Rock quando o cantor Ronnie James Dio o exibia para o público nos seus shows, e segundo ele, este é um símbolo para espantar as más energias. Já a igreja acredita que os chifrinhos simbolizam chifres mesmo, os mais especificamente, os chifres do Demônio.

Mas esse símbolo é tão banalizado que pode até ser tema de piadinhas:


Já a Cruz de Tau é mais usada por rockeiros metidos a góticos, raramente sendo usada por rockstars e quase não aparecendo em logos, fotos promocionais e coisas do tipo. Essa cruz tem origem egípcia, e são várias as suas aparições na história, como no alfabeto grego e em uma passagem no Antigo Testamento de Ezequiel. Apesar de ser um símbolo originalmente pagão, essa cruz Tau é usada pelos cristãos franciscanos até hoje.


Ankh, ou Cruz com Laço, também tem origem egípcia e também é usada pelos góticos (e rockeiros metidos a góticos), sendo um dos símbolos mais famosos dos famigerados hieróglifos egípcios. Também já teve um integrante do KISS usando uma máscara com seu desenho, como você pode ver ao lado.




Agora o bicho pega. Ou melhor, a besta. A figura do deus pagão Baphomet é usada constantemente por bandas mais extremas do Metal. Representando a união de dualidades (homem e mulher, positivo e negativo, céu e terra, humano e animal, entre outras), Baphomet foi "satanizado" pela Igreja Católica, que alegava que esta é uma das formas de Satanás.



Sexo, Drogas e Rock and Roll
Não se sabe quem criou esta frase e nem quem a popularizou, o que se sabe é que ela foi considerada o maior lema desse estilo musical. E não era por mal, nem por difamação, mas porque resumia toda a vida dos rockstars: acordavam de ressaca, bebiam pra curar a ressaca, compunham músicas sob efeito de drogas, faziam sexo com groupies até cair de cansaço... e acordavam de ressaca, paravam um pouco com essa vida desregrada... e uma hora depois recomeçavam. Era assim a vida de rockstars. Muitos deles acabaram arruinando suas vidas e sua carreira profissional por causa das drogas, o que fez eles reconhecerem que esse lema "sexo, drogas e rock and roll" era totalmente destrutivo. Quer dizer, menos a parte do sexo. O vocalista do Aerosmith, Steven Tyler, até declarou: "Sexo, drogas e rock n' roll, livre-se das drogas e você terá bastante tempo para as outros dois".

E foi com esse lema involuntário e com o exemplo de vida que os rockstars davam que os cristãos (inclusive aqueles que não eram fanáticos) não hesitaram em acusar o Rock de estilo depravado, degenerado, amaldiçoado, hedonista, imoral, pecador, entre outros adjetivos de repulsa. As acusações deles eram tão histéricas que até perdiam o sentido, como se fosse o Rock quem influenciasse os rockstars a serem exagerados e inconsequentes. E claro, sempre tinha a maldita influência de Satanás que levava os rockstars ao mau caminho.


Mensagens subliminares
Esta é provavelmente a mais famosa lenda que já foi feita para acusar o Rock de servo de belzebu. Não há uma única pessoa (no mundo ocidental) que não tenha ouvido falar nas mensagens subliminares que se escondiam nas músicas de Rock e que se revelavam quando eram tocadas ao contrário.

Mas primeiro vamos entender o que é isso. Mensagem subliminar é a chamada mensagem escondida ou disfarçada que é reproduzida em algum meio de comunicação, seja filme, música, propagandas de produtos, etc. Segundo a teoria (embasada e defendida por charlatões), as pessoas tem o poder de captar e assimilar absolutamente tudo que está ao seu redor, conseguindo registrando todas as informações, detalhes e coisinhas pequeníssimas do ambiente em que se encontra. Sim, o nosso cérebro é ultra poderoso, consegue se ligar em tudo. Mas há um detalhe importante: existem informações que nós captamos conscientemente (como este texto que você está lendo agora, por exemplo), e também informações que não captamos conscientemente, por nosso cérebro estar focado em coisas maiores e que chamam mais atenção dos nossos sentidos. E são essas informações que não captamos que chamamos de "subliminares", por estarem num nível sub... liminar. Abaixo do liminar. E mesmo que não as captemos conscientemente, nós as assimilamos no subconsciente. Isto, é bom lembrar, é segundo esta teoria.

Mas o interessante vem agora: se estas informações subliminares forem frases imperativas, como "beba Coca-Cola", "Compre Batom" ou "ABUSE E USE C&A", elas tem o poder de, literalmente, nos influenciar a cumprir esses mandamentos imperativos. A lógica é que, se você vê um anúncio de hambúrguer falando pra você comprar hambúrguer, você não vai comprar hambúrguer por causa de um cartaz. Maaaaaas se você captar uma mensagem subliminar com a mesma mensagem de "compre hambúrguer", seu cérebro vai assimilar essa frase imperativa e as chances de você ir lá comprar o tal hambúrguer são altíssimas!

O mais crítico pode pensar em várias coisas agora: é sério isso? Isso tem comprovação? A ciência já experimentou isso? Isso funciona mesmo? Cadê as fontes, as pesquisas, os estudos, cadê as evidências? O nosso cérebro REALMENTE capta tudo que está ao nosso redor? E o nosso cérebro automaticamente obedece o que capta?

Todas essas perguntas acima são totalmente compreensíveis e CORRETAS, pois é sempre bom buscar evidências e fontes para confirmar as "verdades" que ouvimos. E se formos procurar estudos sobre "mensagens subliminares", veremos só um experimento. Só unzinho. É um experimento que o pesquisador James Vacary supostamente realizou em 1957 num cinema, onde projetou no telão as frases "coma pipoca" e "beba Coca" durante um filme, e depois da sessão, as vendas de pipoca aumentaram 57,5% e as de Coca 18,1%. Mas este autor disse "supostamente" antes, porque James apenas disse que fez o experimento, não dando detalhes da sua metodologia, onde ele realizou esse experimento, nem nada.

Além disso, anos mais tarde, James confessou que seus dados eram falsos.

O que não impediu, entretanto, que um bando de religiosos bitolados tratassem esse experimento que nunca aconteceu como real, e principalmente, como base para argumentar que mensagens subliminares são reais e funcionais.

Mas e o Rock, o que tem a ver com isso tudo?

Absolutamente nada.

É sério, nada. Se você considerar que mensagens subliminares são "mensagens captadas apenas pelo subconsciente", as supostas mensagens satânicas escondidas nas músicas ao contrário, e bem audíveis, não tem nada a ver com "mensagens subliminares"! Elas seriam, sei lá, "mensagens reversas"! E por acaso nosso cérebro é tão poderoso que assimila até coisas ao contrário?!

E olha só, é exatamente isso que as "mensagens subliminares" do Rock são: mensagens reversas. O nome oficial delas é backward masking, ou backward messages, ou ainda backmasking. Abaixo, você vê os casos mais famosos desse recurso de estúdio sendo usado pelas bandas e artistas:


Beatles - Revolution 9
Os Beatles foram os primeiros a introduzirem as backmaskings no Rock, começando pela música "Rain", que, lá pro finalzinho, são ouvidos os primeiros versos da música, só que ao contrário. Grande coisa, né? Depois a banda se aproveitou da lenda urbana de que Paul McCartney havia morrido num acidente de carro e sido substituído por um sósia, para espalhar mensagens e pistas nas suas capas de disco, imagens promocionais e, é claro, mensagens ao contrário em suas músicas. Uma delas, é "I'm So Tired", onde ouve-se lá no finalzinho, ao contrário, "Paul is a dead man, miss him, miss him".

Mas nenhuma música foi tão longe pra alimentar essa lenda quanto "Revolution 9". Essa música (que não é uma música, de fato) é uma compilação de diálogos, múrmuros, barulhos, gritos, música, testes de som (aquele maldito "number 9" repetido mil vezes é simplesmente um teste. Que nem quando os técnicos testam o microfone, dizendo "ei, ei, som, som")... E o resultado de todos esses sons é uma coisa bem... bem... BIZARRA. Mas se ela é bizarra normalmente, fica pior ao contrário! Pois a "canção" revela um acidente de carro com explosão, pessoas gritando, Paul gritando querendo sair do carro todo quebrado e não podendo... é, cara. Isso é pior do que esses filmes de terror de roliúdi e musiquinhas infantis de Black Metal.

Ah, já estava esquecendo do principal: o "number 9" repetido mil vezes ao contrário se transforma em "turn me on dead man". Muita gente acha que há uma vírgula no meio da frase, pelo fato das palavras serem faladas separadamente e terem entonação diferente, dando assim a tradução "me excite, homem morto". Mas sem essa vírgula, a tradução correta seria "me transforme em homem morto", para combinar com a proposta de alimentar a lenda da morte de Paul. Enfim, confira aí e... certifique-se que você esteja lendo isto de dia.

Obs: muitas frases que o vídeo sugere não coincidem com o áudio.

Pink Floyd - Empty Spaces
Essa mensagem pelo menos dá pra entender direitinho. Pena que ela não tenha lá muito sentido. Nela, Roger Waters fala: "Congratulations, You have just discovered the secret message. Please send your answer to 'Old Pink', Care of the funny farm, Chalfont..." e James Guthrie depois dizendo "Roger, Caroline's on the phone...".

Slayer - Hell Awaits
O Slayer já é satânico por si só, segundo os cristãos. Mas pra melhorar sua imagem (sqn), a banda faz uma backmasking na introdução desta música, onde fala repetidamente "join us". O que, junto ao contexto...

Iron Maiden - Still Life
Opa, mais uma banda satânica! Desta vez, simplesmente por ter um zumbi como mascote e por causa da música "The Number of The Beast". Mas você sabia que a dama de ferro também fez uma backmasking? Pois é. Nela, Nicko McBrain conta um monólogo: "what ho sed de t'ing wid de t'ree bonce" ("what ho said the monster with the three heads", em dialeto rasta). Ao que ele mesmo responde: "don't meddle wid t'ings you don't understand". Aí ele termina falando "burp". Falando mesmo.

Electric Light Orchestra - Fire on High
A banda foi acusada de fazer as malditas "mensagens subliminares" na música "Eldorado", mas era uma mensagem MUITO forçada, não dava pra entender nada. Aí pra entrar na brincadeira, a banda acabou fazendo uma backmasking de verdade, que dizia: "The music is reversible, but time… is not. Turn back! Turn back! Turn back! Turn back!".

Motörhead - Nightmare/The Dreamtime
Nessa música, Lemmy fez praticamente um manifesto contra o PMRC. Não sabe o que é isso? Joga no google. Ele diz: "Now tell me about your miserable little lives. I do not subscribe to your superstitious, narrow minded flights of paranoia. I and people like me, will always prevail! You will never stifle our free speech in any country in the world, ‘coz we will fight forever." A música segue e depois ele fala: "In a single stroke, you poor, stupid, running dogs. Why is it?"

Led Zeppelin - Stairway To Heaven
Este é o caso mais famoso de backward masking que, aliás, é o mais complexo de todos. Todas as mensagens mostradas até agora são incompreensíveis, só se tornam compreensíveis se forem de fato tocadas ao contrário. Mas nesse caso, os versos da música se transformam magicamente nisso: "Here's to my sweet Satan. The one whose little path would make me sad, whose power is Satan."
O vídeo até mostra as outras frases, mas elas não combinam muito.

Engenheiros do Hawaii - Ilusão de Ótica
Também tem brasileiro safado fazendo backmasking! Os Engenheiros usaram bastante esse recurso, primeiro dizendo: "Por que cê tá olhando isso ao contrário? O que cê tá procurando? HEIN?", e depois um discurso todo: "Mal entendido, bem intencionado, mal informado, bem aventurado, Jesus salva, salve as baleias, leia livros, safe sex, relax! O papa é pop, o país é pobre, o PIB é pouco, meu pipi no seu popô e seu popô no meu pipi, poesia é um porre, o futebol brasileiro são várias camisetas com a mesma propaganda de refrigerantes, a juventude brasileira sem bandeiras, sem fronteiras pra defender!"

Capital Inicial - Mickey Mouse em Moscou
Já imaginou um diálogo invertido? Não precisa imaginar:
"- Ei Tobi, acho que estão nos espiando!
- Você acha mesmo?
- Yeah! Que tal irmos pra um lugar mais reservado?
- Que tal na Ilha de Malta?
- Why, animal?
- Ei, você aí escutando, dá um tempo!
- Hey guy, this conversa is particular!
- Cai fora babaca!
- Hahahahahaha!"

Existem outras backmaskings confirmadas que este autor não quer mostrar porque a lista é enorme. E também tem outras "mensagens subliminares" famosas, mas que são totalmente forçadas e falsas, tais como a de "Hotel California" do Eagles, que (não) diz "Yes, Satan hears this, he had me believe in him".

Uma coisa é certa: se você está procurando, você vai achar! Qualquer música colocada ao contrário terá consoantes e vogais. Assim, com um pouco de boa vontade (e falta de que fazer), você consegue interpretar qualquer coisa que quiser, e consegue ver (ouvir, no caso) satanás onde não tem facilmente. Bota aí uma música qualquer do Raça Negra, que você vai conseguir ouvir frases, discursos para Satan, um ode a pudim, ou a recitação de uma declaração de rescisão de alocação. Que? Prrrrrrr. Enfim, você pode inventar e interpretar qualquer coisa a partir de um monte de grunhidos invertidos.

Mas mas mas mas por que as bandas faziam esse tal de backward masking, afinal? Bem, há duas razões. A primeira, e mais importantes de todas, é: estratégia de marketing. O Rock sempre faturou muito sendo "do mal" e "anticristão", e as backmaskings ajudaram ainda mais o Rock a manter essa fama. Assim, só pra conferir se tal banda é satânica mesmo, só por curiosidade mesmo, as pessoas iam lá e compravam os vinis, só pra tocar eles ao contrário em casa! É, o que a curiosidade não faz, né! Nesse caso, a curiosidade não mata o gato, e sim o vinil, porque quanto mais a pessoa rodava o vinil ao contrário, mais o vinil desgastava, até chegar num ponto que a sonoridade já estava toda afetada e o vinil estragava. E o que a pessoa fazia? Comprava outro vinil! Isso mesmo, as backmaskings foram bem rentáveis para o Rock! Tudo pelo dinheiro.

Ah, e a segunda razão para usarem backmaskings é... pra descontrair. Só pra zoar mesmo. É legal, sabe, poder brincar com isso, mandar mensagens engraçadas, outras bem loucas, enfim.


Outras evidências de que o Rock é satânico
Além de "mensagens subliminares", o estilo de vida dos rockstars, suas letras controversas, sua atitude contracultural, sua imagem "diabólica" ilustrada por Alice Cooper, Mercyful Fate, King Diamond, Venom, Ozzy Osbourne, KISS... várias lendas e boatos ajudaram a "evidenciar" que o Rock é escravo das chamas infernais:
  • A sigla KISS significa Knights In Satan Service (Cavaleiros a serviço de Satan). Isso foi um boato inventado pela igreja protestante dos EUA. E quando a banda veio fazer show aqui no Brasil, a igreja evangélica disse que eles pisoteavam pintinhos ao vivo. Peraí né, cristãos, eles só cospem sangue, aff
  • Além de se chamar sabá negro e falar de ocultismo, o vocalista do Black Sabbath, Ozzy também come morcegos ao vivo. Na verdade isso só aconteceu uma vez, e ele fez isso porque pensou ser um morcego de borracha, ou falso ou qualquer coisa do tipo. Afinal, quem jogaria um morcego de verdade pra ele? Ou melhor, quem seria o louco de levar um morcego morto num show de Rock? Sem falar que Ozzy se considera católico.
  • O cantor Jim Morrison da banda The Doors se casou com a wiccana Patricia Kennealy-Morrison num ritual tipicamente pagão (melhor dizendo, neopagão). Ele também dizia que era possuído por shamans. Bem, tudo isso é verdade.
  • Também é verdade que Alice Cooper disse que a origem do seu nome artístico (pois seu nome verdadeiro é Vincent Damon Furnier) veio a partir de um contato com um espírito feito através de um jogo de ouija.
  • O guitarrista do Led Zeppelin, Jimmy Page, comprou o ex-casarão de Aleister Crowley, um filósofo satanista muito conhecido. É, basicamente isso. Tipo, se você comprar um quitinete de um macumbeiro, isso prova que você é macumbeiro também.
  • Inúmeras bandas já fizeram referências a Crowley, como Raul Seixas, Ozzy, Bruce Dickinson, os Beatles que colocaram a sua carinha na capa do álbum "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band", entre vários outros.
Enfim, todas essas evidências já abordadas são suficientes para convencer qualquer um de que o Rock é, de fato, um estilo possuído por Satanael senhor das trevas, não é?

Ehr.... não. Se a ironia que este autor usou não foi suficiente para que ele tenha deixado claro seu ponto de vista, ele vai deixar tudo claro abaixo:


Verdades inconvenientes
Este tópico serve exclusivamente para desconstruir e destruir o estigma do Rock ser inerentemente satânico. Ele não vai convencer os mais bitolados e extremistas, mas vai planta ruma sementinha de razão naqueles que tem a mente mais aberta. Então vamos lá?

Ninguém que fala/cita algo relacionado ao Ocultismo/Satanismo/Seitas/Religiões pagãs é necessariamente envolvido/praticante/crente nesse assunto
Olha, só o título desse tópico já é suficiente, mas... vamos estendê-lo. São Cipriano não foi um grande estudioso de ocultismo e magia negra que no fim, arrependido, se converteu ao catolicismo? Dave Mustaine, que cantou "The Conjuring", não se converteu ao Cristianismo depois de mais maduro? E o Ozzy, ele mesmo não se considera católico? E não existem tantos rockstars e artistas que fazem referências a demônios, inferno e blá blá blá, mas na verdade são ateus, como Bruce Dickinson (sim, o vocalista daquela banda que tem zumbi como mascote e tem um álbum com o número da besta)?

Pois então, falar sobre o assunto não significa necessariamente que a pessoa entra totalmente de cabeça no assunto, mas sim que é interessada nele, apenas. É muito precipitado afirmar com toda a certeza do mundo, que uma música representa totalmente as impressões, ideias e conceitos dos seus autores. Se formos levar ao pé da letra este pensamento, teremos que interpretar que a dor de cotovelo das músicas dos artistas pop é real, mesmo que esses artistas já tenham relacionamentos estáveis por anos, por exemplo.

Se interessar por assuntos que não sejam cristãos não é necessariamente ruim
Isso aumenta nossa bagagem cultural, aumenta nosso conhecimento, ficamos cientes de outros pontos de vista e amplia nossas visões e conceitos pessoais sobre as coisas. Todas as pessoas curiosas que buscam saber de várias coisas ao mesmo tempo, conhecer várias culturas, várias ideologias e várias visões de mundo, são sempre as pessoas mais inteligentes, mente-aberta, tolerantes e respeitosas que você pode encontrar. Já as pessoas que se prendem aos seus conceitos pessoais e desprezam tudo que seja diferente da sua visão de mundo se tornam as criaturas mais fanáticas, alienadas, desrespeitosas, agressivas e descriminantes que se pode ter.

Não se deve julgar um grupo inteiro baseado em um único membro
Se um político foi revelado ser um corrupto, isso quer dizer que todos os políticos são corruptos? Se você pensa que sim, jogue fora seu cérebro. Não se preocupe, pois ele é pequeno demais para fazer falta. Esse é o mesmo tipo de pré-julgamento e generalização que acontece com o Rock, que seleciona UM rockstar membro de uma cultura pagã (exemplo) e já considera que todos os outros rockeiros são anticristãos, ou que o próprio Rock é anticristão.

Liberdade de expressão irrestrita
Rock é música, é arte, é uma forma de expressar, e ninguém tem o direito de impedir isto. Por isso os cristãos tem é que respeitar o livre arbítrio e deixar que os outros se expressem, seja a favor deles ou contra eles. E mesmo que você seja um cristão fanático que não aceita opiniões diferentes e queira que seus opositores calem a boca, saiba que a liberdade de expressão e de opinião é garantida pela lei, e que o que você está fazendo é uma tentativa de censura. Ou seja, mesmo que você não queira respeitar este princípio da liberdade de expressão, seguindo os preceitos da sua própria religião, você é obrigado a respeitar a lei, que garante a liberdade de de expressão.

Mas é bom que, nesse caso, não confundam liberdade de expressão com intolerância religiosa. Pois apesar das pessoas acharem que uma mera divergência de opinião é "intolerância religiosa", há uma grande diferença entre as duas coisas. Intolerância religiosa é quando a pessoa despreza religiosos com toda a vontade do mundo, os humilha, os provoca, xinga eles e os deprecia, só por eles serem religiosos. Já opinar sobre suas divergências com a religião e com religiosos em geral, com educação, com argumentos, seriedade, é simplesmente liberdade de expressão. A pessoa tem a liberdade de escolha, de optar por ser ou não ser religiosa, de acreditar ou não na religião (ou nas religiões), e de se expressar acerca do assunto. Enfim, intolerância é intolerância, e opinião é opinião.

Música não tem o poder de influenciar ninguém
Esse tópico deve ser esclarecido melhor, pois muitos rockeiros deixaram de ser religiosos, ou ao menos começaram a questionar os dogmas religiosos, graças às músicas de Rock. O caso é o seguinte: a Música tem tanto poder de influenciar nossas opiniões, quanto qualquer coisa que emita suas opiniões: radialistas, apresentadores de tv, livros, filmes, animações, quadrinhos, professores, familiares, políticos, a mulher do camelô que trocou uma ideia com você... enfim. TUDO EMITE OPINIÃO! Logo, TUDO tem poder de nos influenciar!

MAS só porque a música (assim como todo o resto) tem poder de influenciar nossas opiniões, isso não significa que ela vai, de fato, mudar nossas opiniões. Não é? Podemos muito bem ouvir uma música que emite/defende certa filosofia, por exemplo, e simplesmente ignorar essa mensagem. Podemos muito bem deixar de lado a mensagem e curtir o som, focar no som, dar valor mais ao som do que à mensagem.

É preciso ser muito, mas MUITO influenciável pra seguir/obedecer o que uma música (e qualquer coisa) fala. Por exemplo, sabe aquele estereótipo do garoto que jogou um videogame violento e depois saiu matando todo mundo? A mídia em geral faz de tudo para fazer você acreditar (olha aí a mídia querendo te influenciar) que o garoto saiu matando geral porque o videogame o influenciou a ser violento. Mas existem inúmeras pessoas que jogam Mortal Kombat e não dão fatalitys em ninguém, inúmeras pessoas que jogam GTA que não roubam carros nem batem em prostitutas, inúmeras pessoas que jogam God of War e não matam deuses gregos...

Enfim, esse garoto hipotético que mata todo mundo depois de jogar videogame certamente já tem o psicológico abalado por conta de uma péssima estrutura familiar, condições de vida precárias, rendimento baixo da escola, falta de acompanhamento ou apoio, etc. O fato desse garoto hipotético viver jogando videogame é só um detalhe, nesse caso. E talvez seja a única coisa de bom na vida que esse garoto tem! Enfim, é isso que é necessário para ser facilmente influenciável: um psicológico que já é fraco ou afetado.

Em resumo, não é porque o seu pastor falou pra você odiar gays, que você vai prontamente odiar todos, não é? Não é?

Pessoas ouvem tal música porque A MÚSICA é agradável
Esse é um gancho do tópico anterior. A música pode falar qualquer coisa, pode falar de unicórnios diabéticos satânicos comendo buchada de bode, mas dane-se! Dane-se a letra. Quando as pessoas ouvem música, é porque se interessam essencialmente pela música, a letra fica em segundo plano. Se a música for boa, combinar com as opiniões da pessoa que ouve, é lucro! É um bônus! Mas se não combinar, tudo bem, não importa.

As pessoas que ouvem músicas exclusivamente pelas suas letras, buscando letras que as agrade, ou que as identifique, podem achar os temas que procuram e que se interessam em qualquer tipo de música, e inclusive em qualquer estilod e Rock. Temt antos estilos dentro do Rock e Metal, que as possibilidades são infinitas. Tem até Rock Cristão e Metal Cristão!

E agora a maior verdade inconveniente de todas:

Os artistas tem atitude "satânica" exatamente para gerar polêmica!
Em uma sociedade carregada de conservadorismo e moralismo (não confundir com moralidade), que doutrina todo mundo a cumprir regrinhas com a chantagem de ser digno de respeito (e de não ir pro inferno), que não deixa as pessoas serem livres, espontâneas e com ideias e vontades próprias... que solução podemos arranjar pra quebrar isso?

O Rock já deu várias respostas pra isso: ignorar, se expressar contra, e até bater de frente. Tudo para mostrar que existe alternativa, existe escapatória, existe liberdade. O Rock sempre foi um grande revolucionário que inspirou todos os inconformados a fazer movimentos contra-culturais, e sempre foi porta-voz das gerações exaustas das opressões.

Ainda assim, é possível questionar se todo esse "anticristianismo" e toda essa gana por ser anticristão é realmente necessária. Este autor afirma que sim, e não.

Vamos explicar com uma metáfora: imagine uma mola. Uma mola mesmo, aqueles objetos que pulam, sabe, então. Aí você aperta essa mola, aperta, aperta, até chegar um momento em que a mola chega no limite, onde ela não tem mais como ser apertada, e onde você não tem mais forças para mantê-la apertada. Assim ela se solta e pula com toda a violência do mundo pra beeeem longe.

É mais ou menos essa a situação: a Igreja e todo seu moralismo, tradicionalismo, conservadorismo, e até reacionarismo, oprimiram as pessoas e impediram elas de expressar opiniões diferentes, de se comportar de modo diferente, de pensar de mundo diferente, de viver de modo diferente. Chegou um momento em que não dava mais pra aguentar essa situação. Daí a mola expandiu com toda violência do mundo, e ao invés das pessoas penas se oporem às opressões e viverem uma vida livre, elas liberaram toda sua raiva e angústia acumulada. Daí vierem revoltas (pequenas e grandes) para se opor diretamente ao cristianismo e seus dogmas, que pregavam o anticristianismo, satanismo, paganismo e anti-religiosidade em geral.

Por isso, é possível sim considerar esse anticristianismo todo um exagero. É sim possível julgar certas bandas e artistas (especialmente as de Metal extremo) como exageradas e "extremistas ao contrário".

Mas hoje, esta mola metafórica já está mais ou menos em equilíbrio, em estado de repouso. Isso significa que, o que resta hoje em dia é que a rixa entre Rock e religiosos é bem mais fraca atualmente. Fanáticos religiosos continuam pregando que o Rock é satânico, mas não o condenam com tanta intensidade quanto condenam outras coisas. E existem pouquíssimos rockeiros que levantam essa bandeira do anticristianismo com firmeza, pois arrumam outras formas de pagarem de rebeldes trevosos e "polêmicos". E também, as bandas que abordam anticristianismo nunca são levadas a sério.

Claro que ainda existem os rebeldes sem causa que zombam de todos os religiosos e que os consideram o ópio da humanidade, e os religiosos que falam que tudo é do diabo e que todos os rockeiros precisam aceitar Jesus, ou vão tostar no Inferno. que não são cristãos são o mal da humanidade. Mas as novas gerações concordam que o correto é acreditar (ou não acreditar) no que quiser, sem desrespeitar o próximo.

Este autor sabe que os fanáticos muito provavelmente não vão mudar de opinião com este artigo sobre o Rock não ser essencialmente satânico, mas ele certamente vai servir de base para os que tem bom-senso poderem argumentar melhor, terem mais informações sobre o assunto e terem mais embasamento na hora de discutir sobre ele. Além de sanar dúvidas de rockeiros novatos e servir para plantar a sementinha do questionamento nos que estão começando a formar suas opiniões.

Este é o sermão que este autor tinha para hoje, e esperam pelos próximos. Adeusmetal.

2 orações:

Linder Neves disse...

Mas profeta, e aquelas palavras e risadas no final de "The thin line between love & hate"? Elas são liminares ou subliminares? E o quê exatamente eles falam? Se puder me responder... valeu.

Linder Neves disse...

"[...]Enfim, confira aí e... certifique-se que você esteja lendo isto de dia."


Merda, são quase 3 da manhã e.e

Postar um comentário