quarta-feira, 29 de abril de 2015

Caos organizado

Um átomo de urânio tem 92 elétrons, e tais partículas se movimentam aleatoriamente desorganizadas, já que se repelem por terem cargas iguais. Mas, uma vez que elas sejam atraídas pelos 92 prótons do núcleo, os 92 elétrons continuarão fazendo parte do átomo, mesmo que se movimentem desordenados. Assim como os átomos, tudo que há na natureza segue uma ordem: as ondas de um lago formadas por uma pedrinha lançada ali, que formam círculos perfeitos; os relâmpagos de uma noite tempestuosa que só nascem a partir do encontro entre cargas positivas e negativas; as flores que nascem com formas geométricas perfeitas; as gotículas de água que formam flocos de neve de diversas formas graças às baixas temperaturas; a pressão que transforma carvão em diamante... Todos esses pequenos ou grandes fatos que tem toda a chance do mundo de serem aleatórios, de acontecerem apenas uma ou duas vezes, ou de simplesmente não existirem, no fim, existem. E existem porque seguem uma ordem.

Com a música não é diferente. A Música é um conjunto de vibrações sonoras e intervalos de tempo delimitados por um ritmo; e tais sons têm duração, amplitude, timbre, frequência, volume, e outros fatores que obedecem a leis mecânicas, físicas e matemáticas. A Música é isso: qualquer conjunto de sons e silêncio que tenha ritmo. Isso abre um leque para várias possibilidades e alternativas, várias canções, várias cantos, obras, hinos, batidas, melodias, sons... E a partir daí, nós humanos entramos em ação para dar nomes a várias músicas que se assemelham e defini-las em estilos / gêneros musicais.

A partir disso, nós escolhemos os estilos que mais nos agradam. Sim, essa é a hora que o "gosto próprio" aparece, e às vezes (muitas vezes) se torna o motivo principal de muitas discussões, brigas, guerras civis, guerras mundiais, batalhas intergaláticas e conflagrações divinas cataclísmicas que tem poder de destruir todo o universo - não só o universo, mas o multiverso! Tudo isso porque esses humanos idiotas sempre querem impor seu gosto musical pros outros, colocar o seu gosto musical como o melhor de todos e desprezar o gosto musical alheio. Vê se os coelhos, ou as plantas, ou os protozoários perdem tempo fazendo isso? Eles tem coisa melhor pra fazer.

E ninguém melhor para sentir isso na pele do que nós, rockeiros, metallers, headbangers, metalheads, metaleiros e pedreiros em geral, que sempre somos estereotipados como pessoas burras e brutas que só gostam de barulho, como se fôssemos uma caricatura de um homem das cavernas moderno. O senso-comum acha que tocamos instrumentos sem nenhuma técnica, gritamos escandalosamente ou arrotamos ao invés de cantar, só queremos ser os mais barulhentos, rápidos, pesados, selvagens e animalescos possíveis, chegando a dizer que não tocamos "música de verdade". Isso mostra que o senso-comum tem uma definição extremamente limitada sobre o que é música, já que música também pode ser alta, ter batidas pesadas, ter sons afiados e fortes e ter uma voz potente. O Rock, assim como qualquer tipo de música, também é um conjunto de sons e silêncio delimitados por um ritmo. Então como ele não seria "música de verdade?

Para ilustrar isso, vamos conferir alguns exemplos para esclarecer as coisas e detonar todas as injúrias, calúnias, difamações, mentiras e preconceitos sobre o Rock ser um mero barulho desorganizado e desordenado.

Comecemos com está música que acordes graves que dão o ritmo e o peso da música, acompanhados de uma voz que em nenhum momento é agressiva, rouca ou estridente, mas não deixa de ser forte e de personalidade. A música também tem suas partes mais enérgicas e pesadas, mas elas não duram o tempo todo, provando que "Rock não é só barulho". É esse ritmo marcante que define a canção.


Peguemos agora um exemplo de música com melodia e sonoridade assimilável bem presentes. Tem até um violão pra acompanhar. Não é à toa que a maioria das baladas famosas são de Rock.


Agora pra mostrar como o Rock tem técnica, complexidade, ritmo e talento, vamos mostra uma música que se sustenta apenas com sua música! Sem nenhuma voz! Pra ver como o Rock faz verdadeiras obras de arte, não precisando de um vocalista pra prender a atenção das pessoas.


Esse exemplo a seguir é pra ninguém botar defeito: um Metal... Sinfônico! Porque o Metal pode ser tão épico que pode até ser misturado com música clássica, mas sem perder o peso, as guitarras, o ritmo, até a voz grossa típica do estereótipo do Metal. Tudo combina perfeitamente.


Mas agora vamos par ao Metal tradicional, aquele Metal que é estigmatizado. Pois bem, basta um pouco de boa vontade para analisar e ouvir a canção despido do véu do preconceito e comprovar que ele não é "só barulho o tempo todo". A bateria e baixo dão o peso, mas eles estão dentro do ritmo, assim como as guitarras que só aparecem nos momentos certos. O vocalista não faz aquela voz estereotipada rasgada, estridente ou "arrotada", mas canta os versos com afinação e quase não comete excessos. A maioria das músicas são assim, com particularidades e mudanças de acordo com a banda. Então podemos parar de achar que o Rock e Metal são uma barulheira descoordenada sem fim?


Mas será que os fãs de Rock/Metal sabem disso? Será que eles entendem e apreciam essas características, sutilezas, técnicas e complexidade toda? Ou será que eles só ouvem Rock/Metal porque é a trila sonora perfeita para bagunçar, quebrar, violentar, matar e fazer rituais ocultistas?

"Cremdeuspai! Esses desordeiros ficam batendo uns nos outros, que horrorível!!! Valhamenossasinhora!!!"

Se eles são tão conscientes, por que fazem esse tipo de coisa? Ora, simplesmente porque estão contagiados com o ritmo que gostam e estão ouvindo a toda altura, Isso é um show, a ideia é extravasar mesmo, se libertar, liberar tudo e fazer o que quiser. Por acaso as pessoas ficam paradas em festas, baladas, micaretas, etc? Em shows é a mesma coisa. A diferença é a forma com que as pessoas se divertem e festejam. Essas criaturas que fazem "wall of death", rodinha punk, gritam, levantam os braços com os punhos pro alto e vibram, todas elas sabem quando é a hora de fazerem essas coisas e quando não é hora. Elas não agem assim no meio da rua, no trabalho, no ônibus, no dentista, no shopping, etc. No máximo em casa, pois é... seu lar, um lugar privado onde ninguém tem direito de meter a colher. Mas é nos shows que os rockeiros se revelam, naquele espaço onde eles agem como um comprimido efervescente que agita, borbulha, arde e ferve.

E depois estes mesmos rockeiros vão conviver com outras pessoas, interagir, realizar ofícios, se amontoar, se repelir, agir, reagir, sentir... Todos os rockeiros misturados com outras pessoas formando uma imensa colônia de pessoas, cada uma desempenhando uma atividade, tendo coisas particulares a fazer, indo em várias direções, voltando, chegando, partindo, gerando um caos impossível de controlar que ao mesmo tempo não afeta em nada o ambiente em que vivem ou o que elas são. Tudo está em constante movimento e mudança, mas nada está mudando de forma e composição. Este é o caos organizado, onde todas as coisas seguem uma ordem, todas elas funcionam, mesmo que pareçam não serem ordenadas por nada.

Talvez o Rock/Metal sejam os estilos que mais representem essa ideia de "caos organizado", dado a sua habilidade de juntar vários sons, vários ritmos, camadas, elementos, nuances e detalhes, e mesmo com toda essa confusão, conseguir se apresentar como uma obra concisa e bem definida. Nada no Rock/Metal é caótico, desordenado, desorganizado.

Agora, quando o caos não é organizado, é isso que acontece:


Em suma, o Rock não é um estilo digno de críticas vazias e superficiais, nem de preconceitos de qualquer espécie. Ele não é um gênero vazio de conteúdo, ou com conteúdo necessariamente ruim. Só poque você não simpatiza com o som, ele não é inerentemente ruim. VOCÊ acha ruim, mas outros acham bom. Aliás, não acham bom, acham perfeito. Aliás, não acham, sabem!

E este irmãos, foi o sermão de hoje. Não criem caos desorganizado e adeusmetal.

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